Pesquisadores identificam bactéria capaz de reduzir a dependência do uso de agrotóxicos na agricultura familiar

No sul do Maranhão, onde o avanço do agronegócio cresce junto com os relatos de comunidades intoxicadas por agrotóxicos, uma descoberta científica surge como um sinal de esperança.

Frequentemente associada ao uso intensivo desses produtos químicos, a região de expansão agrícola conhecida como MATOPIBA, que abrange o Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, pode seguir um curso diferente a partir de uma pesquisa da Universidade Estadual do Sul do Maranhão (UEMASUL), que identificou uma bactéria capaz de reduzir a dependência de fertilizantes e venenos agrícolas.

Batizada de Mycobacterium Agroflorensis, a cepa atua como biofertilizante natural, reduzindo a dependência de fertilizantes químicos e, consequentemente, do uso de agrotóxicos amplamente utilizados na região.

Os primeiros resultados mostram que a nova técnica pode revolucionar o manejo agrícola em regiões sensíveis, como o Cerrado e a Amazônia.

Segundo dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT), dos 182 casos de contaminação de comunidades por agrotóxicos registrados no primeiro semestre de 2024, 156 foram no Maranhão – um aumento de quase dez vezes em relação ao mesmo período de 2023. Por isso, há urgência na contenção do uso desenfreado desses produtos químicos.

Menos química, mais vida no solo 
A descoberta ocorreu de forma inesperada, durante ensaios com biofertilizantes de base orgânica voltados à produção de palmeiras para sequestro de carbono. Em meio à interação de microrganismos, os pesquisadores isolaram uma bactéria com características morfológicas e fisiológicas inéditas.

Após uma série de testes microbiológicos, agronômicos e genéticos, confirmaram se tratar de uma cepa não patogênica, ou seja, que não pode causar doenças. Ao contrário, o grupo de mutações tem um elevado poder de fixação biológica de nutrientes essenciais ao crescimento vegetal.

A Mycobacterium Agroflorensis atua disponibilizando nitrogênio, fósforo, potássio, ferro e vitaminas essenciais às plantas, promovendo crescimento saudável, sem contaminar o solo ou os alimentos. Ensaios em vasos, estufas agrícolas controladas por sensores e simulações espaciais demonstraram aumento da clorofila, maior retenção de água no solo, sequestro de carbono e desenvolvimento vegetal superior ao observado com fertilizantes químicos tradicionais.

Segundo o professor de Ciências Biológicas e coordenador da pesquisa, Zilmar Timóteo Soares, os resultados apontam para uma mudança de paradigma. “A germinação com fertilizante químico é mais rápida, mas o crescimento com a microbactéria é mais saudável. A planta cresce mais, fica mais verde, consome menos água e não carrega resíduos químicos”, explica o professor.

Em testes com culturas como mamão, mandioca, feijão e milho, os pesquisadores observaram não apenas aumento da produtividade, mas também melhorias na qualidade nutricional dos alimentos. “Não adianta produzir muito se isso vier acompanhado de doenças causadas por contaminação alimentar. Segurança alimentar é quantidade e qualidade”, afirma Zilmar.

Agricultura familiar no centro da solução
A descoberta chega em um momento crucial, quando dados do Anuário Estatístico da Agricultura Familiar 2024 mostram que o setor é responsável por cerca de 23% do valor bruto da produção agropecuária, 67% das ocupações no campo e pela dinamização econômica de 90% dos municípios brasileiros com até 20 mil habitantes.

Segundo a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG), a agricultura familiar brasileira é hoje a 8ª maior produtora de alimentos do mundo, mas em regiões como o MATOPIBA, onde há expansão acelerada de monocultivos, tem sido ameaçada, especialmente pelo uso intenso de agrotóxicos.

Com cerca de 3,9 milhões de estabelecimentos rurais familiares ocupando apenas 23% das terras agricultáveis, o segmento produz alimentos que chegam diariamente à mesa da população e, para esses agricultores, o custo dos insumos químicos e os riscos à saúde são obstáculos constantes.

“Nosso objetivo é desenvolver uma tecnologia acessível ao agricultor mais simples, que possa ser usada sem riscos ambientais ou à saúde”, reforça o professor Zilmar. Com o avanço das pesquisas, a expectativa é que, após mais dois ou três anos – período que deve envolver especialmente testes em solo aberto e registro de patente -, a bactéria poderá ser produzida em larga escala.

Ciência amazônica com protagonismo jovem
A pesquisa chama atenção pelo envolvimento de estudantes da educação básica, a exemplo do jovem Luís Gustavo Neres, que está no 3º ano do ensino médio da Escola Santa Teresinha. Ele é um dos autores da descoberta e participa do programa de extensão Cientista Aprendiz, da UEMASUL. “Foi um processo complicado e caro, porque era uma bactéria nova, mas foi muito enriquecedor. Aprendi muito sobre ciência e como isso pode ajudar a agricultura familiar no futuro”, relata o estudante.

Criado em 2017, o programa Cientista Aprendiz já envolveu cerca de 450 estudantes, promovendo a vivência real em pesquisas científicas e aproximando jovens da ciência produzida na Amazônia.

O que a ciência diz encontra eco no campo
No cinturão verde de Imperatriz, no Maranhão, considerado um polo de agricultura familiar responsável por abastecer a cidade e a região, essa discussão já faz parte do cotidiano dos produtores. O horticultor e engenheiro agrônomo Massao Takaoka, da Hortícula Massao, convive há anos com os limites do uso de defensivos agrícolas.

“Eu faço o mínimo possível de uso, mas o solo aqui tem muito problema de nematoide, que é um verme do solo, talvez por uso de algum tipo de agrotóxico ou porque acabou com inimigos naturais do solo e houve um desequilíbrio”, explica Massao.

Na extensa produção de couve, Massao conseguiu eliminar totalmente o uso de defensivos durante a colheita, cuidado que vem se intensificando há cerca de cinco anos. “A partir do momento em que eu começo a colheita, não aplico nenhuma gota de agrotóxico. Essa couve eu colho desde o mês de maio sem nada. Nem químico, nem natural”, afirma o produtor.

Questionado se utilizaria uma alternativa que dispensasse o uso de agrotóxicos, a resposta é imediata: “Com certeza.” Para ele, soluções biológicas são fundamentais, especialmente para manter o equilíbrio do solo após o controle inicial de pragas.

“Para manter a produção, sem causar prejuízo econômico, o uso de bactérias seria eficiente, e sem precisar de várias aplicações”, comenta.

Um novo caminho possível
Após a fase de testes controlados, a Mycobacterium Agroflorensis deverá passar por mais dois ou três anos de pesquisa, avaliação ambiental e registro de patente, antes de chegar ao mercado. Mas, desde já, é apontada como uma das soluções para os impactos do agronegócio na região.

Desenvolvida a partir da biodiversidade amazônica, a bactéria representa não apenas uma inovação científica, mas também uma proposta de reconciliação entre produção de alimentos saudáveis, preservação ambiental e saúde pública.

Se confirmados os resultados em larga escala, a descoberta poderá reduzir a contaminação do solo e das águas, diminuir custos de produção e fortalecer quem realmente alimenta o Brasil: a agricultura familiar.

Fonte: Amazônia Vox.

Foto: Reprodução

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