Por que a nova fábrica bilionária da LG não vem para Manaus?

A LG Electronics está prestes a inaugurar uma nova fábrica de eletrodomésticos no município de Fazenda Rio Grande, na região metropolitana de Curitiba, no Paraná. Com investimentos estimados em cerca de R$ 1,5 bilhão, o projeto marca mais um capítulo da expansão da indústria de linha branca no Sul do Brasil.

A nova unidade ocupa uma área estimada de 770 mil metros quadrados e deverá produzir inicialmente até 500 mil geladeiras por ano, com previsão de gerar aproximadamente mil empregos diretos e indiretos. A expectativa é que a planta comece a operar ainda neste ano.

Para quem acompanha a dinâmica da indústria brasileira, o avanço desse projeto desperta uma pergunta quase inevitável, especialmente em Manaus: por que esse investimento não veio para o Polo Industrial de Manaus (PIM)?

A resposta passa menos por incentivos fiscais e mais pela lógica de formação de clusters industriais.

Nos últimos anos, o Sul e parte do Sudeste consolidaram um importante ecossistema de produção de eletrodomésticos. Empresas como Whirlpool, Electrolux e Midea mantêm operações relevantes nessas regiões, formando um ambiente produtivo com fornecedores próximos, mão de obra especializada e logística integrada.

No caso da linha branca, esse fator pesa ainda mais. Geladeiras são produtos volumosos e dependem fortemente de cadeias metalmecânicas: chapas de aço, compressores, motores e peças estruturais. Grande parte desses fornecedores está concentrada no Sul e Sudeste do país, o que torna a proximidade geográfica um elemento estratégico.

Produzir no Paraná coloca a fábrica não apenas perto dos fornecedores, mas também dos principais mercados consumidores brasileiros, especialmente Sudeste e Sul, além de facilitar exportações para países do Mercosul.

Mas essa leitura não significa, necessariamente, perda de protagonismo para Manaus. O que se observa, na prática, é uma especialização regional cada vez mais clara dentro da indústria brasileira.

Enquanto o Sul consolida sua vocação em setores metalmecânicos e de linha branca, Manaus construiu ao longo das últimas décadas um dos maiores polos de eletrônicos da América Latina.

O Polo Industrial de Manaus tornou-se referência na produção de televisores, equipamentos de informática, dispositivos de telecomunicações, eletrônicos de consumo e motocicletas, segmentos com alto valor agregado e grande densidade tecnológica, características que absorvem melhor os custos logísticos da região amazônica.

Há ainda um ponto curioso nessa equação. Os eletrodomésticos estão se tornando cada vez mais digitais. Geladeiras modernas incorporam sensores, placas eletrônicas, conectividade e inteligência embarcada. Ou seja, por trás da estrutura metálica produzida nas fábricas de linha branca existe, cada vez mais, tecnologia, justamente o tipo de indústria em que Manaus se especializou.

Visto por esse ângulo, a nova unidade da LG no Paraná não representa necessariamente uma substituição de polos. Pode ser interpretada como parte de uma geografia industrial complementar dentro do Brasil.

O Sul se fortalece na produção metalmecânica e de bens volumosos, enquanto Manaus segue consolidada como base de eletrônicos e tecnologia.

A nova fábrica da LG, portanto, revela algo maior do que um investimento isolado. Ela mostra como o mapa industrial brasileiro continua se reorganizando, com diferentes regiões ocupando papéis distintos dentro de uma mesma cadeia produtiva.

E talvez essa seja a reflexão mais interessante dessa história.

Em vez de disputar exatamente o mesmo tipo de indústria, o país pode estar caminhando para uma especialização regional que torna seus polos produtivos mais complementares do que concorrentes.

 

Cristina Monte
 

Colunista e analista de movimentos industriais na Amazônia.

 

Foto: Divulgação/LG

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