A aprovação, em comissão da Câmara dos Deputados, da proposta que direciona parte dos recursos de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) da Zona Franca de Manaus para projetos de bioeconomia traz um movimento que merece atenção.
Não se trata de criar incentivos, mas de reorganizar recursos que já existem, de modo a impulsionar um setor que, há anos, aparece como promessa para a região amazônica, mas não decola.
Hoje, parte das empresas instaladas no Polo Industrial de Manaus (PIM), especialmente aquelas enquadradas na Lei de Informática e em regimes específicos de inovação, já destina parcela obrigatória de seu faturamento para atividades de P&D. A proposta em discussão abre a possibilidade de que parte desses investimentos seja direcionada para cadeias produtivas ligadas à biodiversidade amazônica, de forma gradual e estruturada.
O movimento pode ser mais amplo do que o ajuste regulatório. Nos últimos anos, a bioeconomia passou a ganhar relevância nas discussões sobre desenvolvimento da Amazônia. Estudos do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), do World Resources Institute (WRI) e de instituições multilaterais indicam que cadeias produtivas baseadas em ativos da biodiversidade podem movimentar dezenas de bilhões de reais nas próximas décadas, além de gerar centenas de milhares de empregos na região.
A chamada ‘Nova Economia da Amazônia’, por exemplo, estima que atividades ligadas à bioeconomia, incluindo produtos florestais, biotecnologia, alimentos, cosméticos e novos materiais, podem gerar mais de R$ 30 bilhões anuais até 2050, criando uma base econômica mais diversificada e menos dependente de atividades de alto impacto ambiental. Entretanto, o desafio continua sendo a escala.
Grande parte das iniciativas de bioeconomia ainda opera em projetos-piloto, iniciativas locais ou cadeias produtivas fragmentadas. Falta conexão com mercados maiores, com investimento industrial e com capacidade de transformação tecnológica. É exatamente nesse ponto que o redirecionamento de recursos de P&D pode ter um papel relevante e transformador se chegar ao ponto da execução.
O Polo Industrial de Manaus (PIM) já concentra um dos maiores parques industriais da América Latina, com faturamento superior a R$ 227 bilhões em 2025 e cerca de 130 mil empregos diretos. Ao aproximar parte desse ecossistema industrial das cadeias produtivas da biodiversidade, abre-se a possibilidade de uma integração mais estruturada entre dois modelos que, historicamente, caminharam separados.
Embora ainda de forma pontual, algumas iniciativas já indicam que essa aproximação é possível. Algumas empresas instaladas no Amazonas vêm explorando aplicações industriais a partir de insumos da região, como o uso de fibras naturais, biomassa e biopolímeros derivados de matérias-primas amazônicas. A própria Tupiplast, por exemplo, trabalha com soluções baseadas em fibras naturais, enquanto outras iniciativas experimentam aplicações industriais ligadas a óleos vegetais, compostos naturais e novos materiais derivados da floresta.
Se bem executada, a nova regra pode ajudar a transformar a bioeconomia em algo além de projetos isolados, aproximando-a da escala produtiva e da inserção real no mercado. Mais do que isso, pode contribuir para a construção de uma nova matriz econômica regional, onde indústria, ciência, biodiversidade e conhecimento tradicional se conectam de forma mais estruturada e possa beneficiar não somente as multinacionais e transnacionais, mas, também, gerar renda em comunidades amazônicas, fortalecer cadeias produtivas locais e criar oportunidades econômicas compatíveis com a conservação da floresta.
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