Reforma tributária abre espaço para uma nova conexão industrial entre Amazonas e São Paulo

Durante décadas, parte do debate envolvendo a Zona Franca de Manaus (ZFM) e outros centros produtivos brasileiros foi construída sob uma lógica de competição. Entretanto, as mudanças trazidas pela reforma tributária podem abrir espaço para uma nova leitura: a da complementaridade entre polos industriais.
Reportagem publicada no domingo (7/6) pela Folha de S.Paulo mostrou que a reforma tributária aumentou o interesse de empresas em operar no Polo Industrial de Manaus (PIM), especialmente diante da reorganização do sistema de créditos tributários e da manutenção do diferencial competitivo previsto constitucionalmente para a região amazônica.

Na avaliação do superintendente da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), Leopoldo Montenegro, essa reorganização não deve ser interpretada como uma retirada de indústrias de outros estados, mas como uma oportunidade para construir cadeias produtivas mais integradas.

Na prática, uma empresa pode ampliar etapas produtivas em Manaus, aproveitar os diferenciais do modelo e, ao mesmo tempo, manter operações estratégicas, centros administrativos, fornecedores, engenharia, tecnologia e outras etapas industriais em estados como São Paulo.
Essa integração, inclusive, já acontece em diversos segmentos. Grandes grupos industriais atuam em diferentes regiões do país, combinando as vantagens de cada ambiente produtivo.

Enquanto a Zona Franca de Manaus oferece um modelo com incentivos federais e mecanismos criados para compensar os desafios logísticos de produzir na Amazônia, São Paulo concentra uma ampla rede de fornecedores, tecnologia, serviços especializados, mercado consumidor e infraestrutura empresarial.

Com a reforma tributária, esse novo desenho pode criar oportunidades para os dois lados.
Para o Amazonas, representa atração de novos investimentos, diversificação industrial, geração de empregos e fortalecimento de setores como eletroeletrônicos, duas rodas, tecnologia e fármacos.
Para São Paulo, além de permanecer como um dos principais centros econômicos e consumidores do país, abre-se a possibilidade de ampliar negócios conectados à cadeia instalada em Manaus. Hoje, fornecedores paulistas já possuem forte participação no abastecimento do Polo Industrial de Manaus, movimentando uma cadeia bilionária de componentes, serviços e tecnologia.
Outro ponto importante está na própria lógica da reforma: a migração da tributação para o destino do consumo tende a beneficiar grandes tributáriamercados consumidores, enquanto regiões produtoras precisarão fortalecer seus diferenciais competitivos.

Ou seja, talvez a discussão não esteja mais em qual estado ganha ou perde, mas em como diferentes vocações industriais podem trabalhar juntas.
O futuro da indústria brasileira pode depender menos da disputa entre polos e mais da capacidade de conectar competências: a escala produtiva e estratégica da Amazônia com a força tecnológica, financeira e empresarial de São Paulo.

Cristina Monte é jornalista, colunista e analista de negócios, especializada na cobertura de indústria, inovação e desenvolvimento econômico na Amazônia.

FOTO/DIVULGAÇÃO – SUFRAMA

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