Quando falamos em aeroportos, normalmente pensamos em embarques, desembarques, passageiros, cargas e conexões nacionais e internacionais. Mas, em várias partes do mundo, os aeroportos passaram a assumir um papel muito maior (e mais estratégico) do que esse e se transformaram em verdadeiros centros de negócios, logística, inovação e serviços. É o conceito conhecido como aerotrópole – e, aos poucos, esse modelo começa a ganhar espaço também na Amazônia.
Conexão e agilidade
Nos últimos meses, o Aeroporto Internacional Eduardo Gomes passou a integrar uma discussão que alinha infraestrutura, competitividade e, principalmente, sobre o futuro do desenvolvimento econômico da região Norte.
A concessionária francesa VINCI Airports, responsável pela administração do terminal desde 2022, vem sinalizando que enxerga Manaus muito além de um aeroporto. Primeiro anunciou medidas para ampliar a conectividade internacional e reduzir significativamente o tempo de entrega de encomendas importadas destinadas à Região Norte. Agora, durante evento realizado na última quinta-feira (23/7), apresentou a proposta de implantar um condomínio logístico voltado ao atendimento das indústrias do Polo Industrial de Manaus (PIM), além da possibilidade de novos empreendimentos comerciais e de serviços no entorno do terminal.
Apesar de parecer ações independentes, quando analisadas em conjunto, apontam uma estratégia mais ampla: ampliar o papel do Aeroporto Internacional Eduardo Gomes como uma plataforma integrada de logística, negócios e desenvolvimento econômico, diversificando as atividades desenvolvidas em sua área de influência.
Essa lógica já é realidade em diversos aeroportos internacionais, que deixaram de ser apenas locais de embarque e desembarque para concentrar centros de distribuição, armazenagem, hotéis, escritórios, centros de convenções e operações logísticas de alto valor agregado. A diferença é que Manaus começa, agora, a entrar nesse mapa.
Logística integrada
A companhia administra mais de 70 aeroportos em diferentes países e, na Região Norte, opera sete terminais: Manaus, Tabatinga, Tefé, Carauari, Parintins, Rio Branco e Cruzeiro do Sul. Essa presença regional permite à companhia a observar a Amazônia como uma rede logística integrada, e não apenas como aeroportos isolados. Não por acaso, a concessionária tem reiterado seu otimismo em relação ao potencial econômico da região e aos investimentos de longo prazo.
Aeroporto e PIM
Já em relação à capital do Amazonas, esse anúncio chega em um momento particularmente oportuno. O Polo Industrial de Manaus (PIM) atravessa um novo ciclo de investimentos, impulsionado pelos segmentos de duas rodas, eletroeletrônicos, tecnologia, conectividade, mobilidade elétrica, entre outros. Ao mesmo tempo, cresce um desafio pouco discutido: a escassez de áreas capazes de receber novos empreendimentos sem ampliar ainda mais a pressão sobre a malha urbana.
E nesse novo trajeto de desenvolvimento, o entorno do aeroporto naturalmente desperta interesse. A proximidade entre centros de distribuição, galpões logísticos e o terminal de cargas pode representar ganhos importantes para empresas que trabalham com componentes eletrônicos, equipamentos de alto valor agregado, produtos sensíveis ao tempo ou operações internacionais. Não por acaso, durante o estudo desenvolvido pela concessionária, o PIM surgiu como um potencial demandante dessa infraestrutura, motivando a aproximação da empresa com a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) para apresentar as oportunidades identificadas.
Desafio na infraestrutura
Apesar de se tratar de uma iniciativa positiva, é preciso refletir que: disponibilidade de área não significa, automaticamente, desenvolvimento econômico. Nenhum polo logístico prospera apenas porque há terrenos disponíveis. O sucesso de um empreendimento dessa dimensão depende de infraestrutura urbana capaz de acompanhar seu crescimento. Isso significa novas vias de acesso, transporte coletivo, drenagem, abastecimento de água, rede de esgoto, energia elétrica, conectividade digital, segurança pública e planejamento territorial.
O investimento privado pode acelerar esse novo ciclo, mas dificilmente produzirá todo o seu potencial se não vier acompanhado de investimentos públicos estruturantes.
Trecho em trecho
O anúncio recente da futura interligação entre as avenidas do Turismo e Max Teixeira, autorizado pelo Ministério de Portos e Aeroportos, sinaliza que esse processo começa a sair do papel. A nova ligação viária tende a melhorar significativamente o acesso ao aeroporto e poderá se tornar uma importante porta de entrada para futuros empreendimentos naquela região.
Competências
Se a proposta evoluir para um novo eixo logístico, será indispensável um planejamento integrado entre Prefeitura de Manaus, Governo do Amazonas, Suframa, concessionária e os órgãos responsáveis por mobilidade, infraestrutura e planejamento urbano. Cada instituição terá responsabilidades distintas, mas igualmente decisivas para o sucesso do projeto.
À Suframa continuará cabendo a missão de atrair e aprovar investimentos industriais. Aos governos estadual e municipal, competirá preparar a infraestrutura urbana necessária para receber esse crescimento. À iniciativa privada, caberá desenvolver os empreendimentos e ampliar a capacidade logística instalada.
Outro desafio, não menos importante, será mudar a lógica que orientou o desenvolvimento de Manaus há décadas. Atrair investimentos continuará sendo fundamental, mas será igualmente importante planejar a cidade capaz de sustentá-los, estejam eles dentro ou fora do PIM.
Isso significa evitar que os investimentos cheguem antes da infraestrutura, como tantas vezes ocorreu ao longo da expansão urbana da capital. Significa pensar a mobilidade antes dos congestionamentos, a drenagem antes das enchentes e o ordenamento territorial antes da ocupação desordenada.
O Aeroporto Eduardo Gomes pode, de fato, consolidar-se como um novo vetor de desenvolvimento econômico de Manaus. Mas isso só acontecerá se sua expansão deixar de ser vista apenas como um projeto aeroportuário ou imobiliário e passar a ser encarada como uma política integrada de desenvolvimento urbano, logístico e industrial.
Se houver orquestração entre investimentos privados e públicos, Manaus ganhará muito mais do que um condomínio logístico. Poderá criar um novo eixo de crescimento, fortalecer a competitividade do PIM, ampliar sua integração aos mercados internacionais e preparar a cidade para as próximas décadas.
Pelo visto, não se trata apenas de expandir a área do entorno do aeroporto ou de um negócio pontual, mas, sim, unir esforços para que o Amazonas alcance a mesma velocidade das oportunidades que começam a decolar a partir dele.
Cristina Monte é jornalista, colunista e analista de negócios, especializada na cobertura de indústria, inovação e desenvolvimento econômico na Amazônia.
FOTO/DIVULGAÇÃO – Cristina Monte


