A entrada da Haier no mercado brasileiro começa a ganhar uma dimensão industrial mais ampla. Em fevereiro de 2026, a multinacional chinesa ainda estruturava a construção da marca, os canais de distribuição e a introdução gradual de seu portfólio no país. Em maio, oficializou sua chegada ao mercado nacional e iniciou a produção terceirizada de televisores e aparelhos de ar-condicionado em Manaus.
Agora, a companhia avalia uma nova etapa: implantar uma fábrica própria no Polo Industrial de Manaus (PIM), inicialmente voltada a televisores e condicionadores de ar, com possibilidade de incorporar outras linhas de eletrodomésticos no futuro.
O projeto ainda não chegou à fase de anúncio formal. Não foram confirmados investimento, terreno, capacidade produtiva, número de empregos ou cronograma definitivo. Também não há, até o momento, informação pública sobre a apresentação ou aprovação de um projeto industrial próprio pela Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa).
A reunião realizada em 12/8 entre representantes da empresa e a Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), entretanto, mostrou que Manaus permanece no centro da estratégia de expansão industrial da Haier no Brasil. A entidade manifestou apoio à implantação da unidade e colocou sua estrutura à disposição para auxiliar a companhia nesse processo.
A Haier já produz televisores e aparelhos de ar-condicionado em Manaus por meio de parcerias industriais com a Jabil e a TPV, empresas com estruturas instaladas no PIM. Segundo as informações apresentadas à Fieam, a fabricação começou em maio, e a previsão é que os primeiros produtos produzidos no Amazonas cheguem às lojas da Bemol no fim de agosto.
Essa primeira etapa permite à companhia entrar no mercado utilizando uma capacidade industrial existente, reduzindo o tempo e o risco da operação. Também oferece condições para testar produtos, preços, canais de venda e preferências dos consumidores antes de assumir os custos de uma fábrica própria.
A estratégia ajuda a explicar por que a chegada da Haier deve ser observada além dos primeiros televisores e condicionadores de ar produzidos no Amazonas. A empresa que começa a ocupar as linhas de montagem de parceiros locais possui escala, tecnologia e portfólio para avançar sobre diferentes segmentos da indústria de bens de consumo duráveis.
Uma gigante chinesa de alcance global
Fundado em 1984 e sediado em Qingdao, na China, o Grupo Haier iniciou sua trajetória moderna ligado à fabricação de refrigeradores. Ao longo de quatro décadas, expandiu os negócios para eletrodomésticos, climatização, casas inteligentes, saúde, robótica, energia, mobilidade e soluções digitais para a indústria.
Dados corporativos atualizados em junho de 2026 ajudam a dimensionar esse crescimento. Em 2025, o Grupo Haier registrou receita global de 426,8 bilhões de yuans, aproximadamente US$ 59,8 bilhões, com crescimento de 6,3%. O lucro total alcançou 32,2 bilhões de yuans, cerca de US$ 4,5 bilhões, alta de 6,7%.
A companhia informa possuir 146 mil funcionários, dez centros de pesquisa e desenvolvimento, 71 institutos de pesquisa, 35 parques industriais e 173 centros de fabricação. Sua estrutura comercial alcança mais de 200 países e regiões e reúne aproximadamente 230 mil pontos de contato com o mercado.
Além da marca Haier, o portfólio global inclui Casarte, Leader, GE Appliances, Fisher & Paykel, AQUA e Candy. Essa composição permite ao grupo atender diferentes mercados e faixas de consumo, dos eletrodomésticos de maior escala aos produtos premium e aos sistemas integrados de casa conectada.
Segundo dados da Euromonitor International divulgados pela companhia, a Haier ocupa há 17 anos consecutivos a liderança mundial em participação nas vendas de grandes eletrodomésticos.
Dentro do grupo está a Haier Smart Home, companhia listada em bolsas e concentrada nos segmentos de eletrodomésticos e soluções residenciais inteligentes. Em 2025, a empresa registrou receita de 302,35 bilhões de yuans, crescimento de 5,71%, e lucro líquido atribuído aos acionistas da controladora de 19,55 bilhões de yuans.
É importante diferenciar os números. Os US$ 59,8 bilhões correspondem à receita de todo o Grupo Haier, que atua em diferentes áreas. Já os 302,35 bilhões de yuans se referem especificamente à Haier Smart Home.
A Haier fabrica refrigeradores, freezers, máquinas de lavar e secar, lava-louças, fogões, fornos, televisores, condicionadores de ar, aquecedores e equipamentos de refrigeração comercial. Seu foco mais recente está na integração desses produtos por meio de conectividade, sensores, automação e inteligência artificial.
Portanto, a Haier que chega ao Brasil não é apenas mais uma marca estrangeira de eletrodomésticos. É um grupo que combina fabricação em grande escala, pesquisa, digitalização industrial e desenvolvimento de ecossistemas tecnológicos para casas conectadas.
Brasil começa pelo mercado premium
A companhia oficializou sua entrada no Brasil em maio, com televisores, geladeiras, máquinas lava e seca e aparelhos de ar-condicionado. A estratégia inicial está concentrada no segmento premium, com produtos adaptados às condições climáticas, energéticas e aos hábitos do consumidor brasileiro.
A distribuição começou por redes como Casas Bahia e Fast Shop e deverá alcançar outros canais. No Amazonas, a Bemol passa a integrar essa expansão. A meta anunciada pela empresa é posicionar-se entre as três maiores marcas do mercado brasileiro de eletrodomésticos no prazo de cinco anos.
Em Manaus, a produção local começa por televisores e condicionadores de ar. Geladeiras, máquinas de lavar e outros produtos ainda chegam ao mercado brasileiro por importação.
Entre as adaptações apresentadas pela companhia estão condicionadores de ar preparados para enfrentar oscilações de tensão, umidade e corrosão provocada pela maresia, além de máquinas de lavar com ventilação interna para reduzir odores quando as roupas permanecem no equipamento depois do ciclo.
A estratégia é construir a marca, compreender o comportamento do consumidor e ampliar progressivamente a produção nacional. É nesse processo que aparece a possibilidade de uma estrutura industrial própria no PIM.
Informações divulgadas no início da operação indicavam investimento estimado entre US$ 30 milhões e US$ 40 milhões para uma fábrica de condicionadores de ar, com potencial para aproximadamente 400 empregos diretos e horizonte de implantação em 2028.
Esses números, contudo, devem continuar tratados como estimativas preliminares. Na reunião mais recente com a Fieam, não houve anúncio definitivo de valor, empregos, capacidade, área construída ou data de inauguração. O horizonte apresentado para as próximas etapas da expansão está entre 2027 e 2028, mas ainda depende das decisões de investimento da companhia.
O que está confirmado é a intenção de avançar da fabricação terceirizada para uma estrutura própria, inicialmente destinada a televisores e aparelhos de ar-condicionado. Geladeiras, máquinas de lavar e outros eletrodomésticos aparecem como possibilidades futuras, condicionadas ao crescimento da marca no país.
O que muda com uma fábrica própria
A produção terceirizada já insere a Haier no ambiente industrial de Manaus, gera encomendas para fábricas locais e utiliza trabalhadores, equipamentos e processos disponíveis no polo. Uma unidade própria, entretanto, ampliaria a dimensão dessa presença.
A fábrica exigiria estrutura industrial, contratação de profissionais, logística, fornecedores, engenharia e atendimento pós-venda diretamente associados à expansão da marca. Também poderia criar condições para incorporar outras linhas de produtos e transferir para Manaus mais etapas relacionadas à produção e à adaptação dos equipamentos ao mercado brasileiro.
Como o PIM já concentra fabricantes de televisores, aparelhos de ar-condicionado e componentes como placas eletrônicas, embalagens e peças plásticas, o interesse está na possibilidade de transformar uma operação comercial recente em um projeto industrial de longo prazo.
Essa base oferece escala, profissionais experientes e fornecedores potenciais, mas também representa um ambiente de forte concorrência. A Haier entrará em mercados disputados por fabricantes nacionais e multinacionais consolidados. No setor de climatização, encontrará um polo que reúne algumas das maiores marcas mundiais e produz milhões de aparelhos por ano.
A entrada de uma empresa desse porte pode estimular investimentos, produtos, tecnologias e fornecedores. Seu impacto mais relevante, entretanto, dependerá do conteúdo efetivamente incorporado à operação local. Uma fábrica terá contribuição maior se trouxer engenharia, pesquisa, testes, qualificação profissional e desenvolvimento de fornecedores, e não apenas novas linhas de montagem.
Tecnologia pode ser o diferencial
A experiência internacional da Haier ajuda a mostrar por que esse ponto merece atenção. A companhia desenvolve fábricas conectadas, sistemas de personalização em escala e plataformas digitais que integram pedidos, produção e cadeia de suprimentos.
Na Tailândia, a empresa colocou em operação, em setembro de 2025, uma fábrica de condicionadores de ar com aproximadamente 324 mil metros quadrados e capacidade projetada para seis milhões de aparelhos por ano.
A unidade utiliza gêmeo digital, inteligência artificial e 23 sistemas digitais distribuídos por 13 áreas consideradas centrais. Segundo a Haier, essas tecnologias elevaram em 50% a eficiência na entrega dos pedidos e em 35% a eficiência geral da produção. A automação alcança 45% dos procedimentos centrais, enquanto a inteligência artificial é aplicada à inspeção visual, à identificação de ruídos, à pesquisa e à gestão dos equipamentos.
Não há confirmação de que uma eventual fábrica em Manaus repetirá esse modelo ou terá a mesma escala. A experiência, porém, mostra o padrão tecnológico empregado pelo grupo em sua expansão internacional e ajuda a dimensionar o que o Amazonas pode negociar e estimular.
Durante a aproximação com a Fieam, representantes da companhia mencionaram possibilidades relacionadas à reciclagem, inteligência artificial, conectividade, eficiência energética e transferência de conhecimentos utilizados pela Haier na China.
O PIM possui instrumentos de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I), universidades, institutos tecnológicos e experiência acumulada na fabricação de produtos eletroeletrônicos. Aproximar esses recursos da operação da Haier pode abrir oportunidades em automação, conectividade, eficiência energética, engenharia de produtos e adaptação dos equipamentos às condições brasileiras.
Da intenção à execução
A defesa feita pela Fieam reforça o interesse da indústria amazonense em transformar a presença inicial da Haier em um investimento próprio. A manifestação institucional é importante, mas ainda não representa uma decisão final de investimento.
Os próximos sinais concretos deverão vir da definição do terreno, da constituição da operação industrial, da apresentação de projeto à Suframa, do licenciamento e da divulgação do cronograma financeiro e produtivo.
Também será necessário esclarecer quais modelos serão fabricados, a capacidade da unidade, o número de empregos, o nível de automação, as atividades tecnológicas previstas e a participação dos fornecedores instalados na região.
A operação atual já tem relevância por colocar Manaus na entrada da Haier no mercado brasileiro. Uma fábrica própria poderá representar uma etapa maior, sobretudo se vier acompanhada de novas linhas de produtos, engenharia e desenvolvimento tecnológico.
A diferença entre uma intenção e uma transformação industrial estará justamente nos detalhes ainda não apresentados. O PIM já foi escolhido para o começo da produção nacional. Agora, o desafio é transformar essa porta de entrada em uma base permanente da estratégia brasileira de uma das maiores fabricantes de eletrodomésticos do mundo.
Cristina Monte é jornalista, colunista e analista de negócios, especializada na cobertura de indústria, inovação e desenvolvimento econômico na Amazônia.
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