O que a liderança da informática no primeiro semestre indica sobre o futuro do PIM

No Dia da Informática, lembrado em 15 de agosto, um número ajuda a dimensionar o espaço ocupado pela tecnologia na economia do Amazonas. O segmento de Bens de Informática respondeu por 22,01% do faturamento do Polo Industrial de Manaus (PIM) no primeiro semestre de 2026, alcançando a maior participação entre os setores instalados no parque fabril.

O PIM faturou R$ 121,76 bilhões entre janeiro e junho. Aplicado o percentual ao resultado total, os Bens de Informática movimentaram aproximadamente R$ 26,8 bilhões no período. Esse valor é um cálculo derivado dos indicadores divulgados pela Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa).
Na sequência aparecem os segmentos de Duas Rodas, com 19,77%; Eletroeletrônico, com 15,90%; e Químico, com 10,87%.

No acumulado até abril, a participação dos Bens de Informática era de 19,62%. No resultado até junho, chegou a 22,01%, indicando ganho relativo de espaço no faturamento do PIM durante os dois meses seguintes. Ainda será necessário acompanhar os próximos indicadores para saber se essa mudança representa uma tendência mais duradoura.

Também é preciso compreender corretamente o alcance desse número. A classificação “Bens de Informática” reúne produtos industriais e não representa, isoladamente, toda a economia digital existente no Amazonas. Software, computação em nuvem, comércio eletrônico, segurança da informação, inteligência artificial e diferentes serviços digitais não aparecem necessariamente dentro dessa conta.
O percentual também não significa que 22,01% do faturamento do PIM tenha sido gerado por pesquisa ou pelo desenvolvimento de tecnologias próprias. Ele mede o valor faturado pela produção enquadrada nesse segmento.
Ainda assim, é um indicador relevante porque demonstra a escala de uma base industrial diretamente ligada à transformação tecnológica.

Entre janeiro e junho, as fábricas de Manaus produziram 6.226.893 telefones celulares. Algumas linhas associadas ao setor também apresentaram crescimento. A produção de microcomputadores desktop avançou 19,73%, alcançando 5.813 unidades, enquanto a fabricação de lâminas e cartuchos cresceu 28%, chegando a 46.121.608 unidades.
Os números mostram uma indústria que está longe de se limitar ao computador tradicional. A informática passou a integrar telefones, equipamentos de comunicação, sistemas de pagamento, terminais de coleta de dados, dispositivos conectados e uma quantidade crescente de produtos utilizados dentro das empresas e das residências.
O próprio varejo especializado precisou acompanhar essa mudança. As lojas que antes concentravam sua atuação em computadores, impressoras e acessórios passaram a trabalhar também com o universo gamer, casas inteligentes, conectividade, inteligência artificial e equipamentos voltados a diferentes perfis de consumidores.

Essa transformação amplia o mercado, mas também aumenta a velocidade com que os produtos e suas funcionalidades se tornam ultrapassados. Para fabricantes e comerciantes, além dos estoques e variedade de produtos, é necessário interpretar novas demandas, capacitar equipes, prestar suporte e ajudar o consumidor a compreender tecnologias que mudam rapidamente.

A inteligência artificial chega aos equipamentos
Uma das principais transformações em curso está na incorporação da inteligência artificial aos próprios dispositivos. Computadores e celulares começam a receber processadores capazes de executar localmente parte das tarefas de IA, reduzindo a dependência integral de servidores externos para determinadas funções.
Isso modifica o desenho dos produtos e aumenta a demanda por processadores mais avançados, memória, armazenamento, sensores e sistemas de eficiência energética. Também cria espaço para novos serviços, programas e aplicações desenvolvidos para aproveitar essa capacidade.

No contexto industrial de Manaus, a questão vai além de acompanhar o lançamento desses equipamentos, e se torna desafio para descobrir quanto dessa transformação poderá ser incorporado às atividades realizadas no PIM.
A produção de aparelhos continuará importante, mas a nova geração tecnológica exige maior aproximação entre manufatura, engenharia, desenvolvimento de software, testes, segurança digital e qualificação profissional.
Quanto mais cedo essas competências forem desenvolvidas, maiores serão as possibilidades de o polo participar das decisões tecnológicas.

Pressão mundial sobre memórias e componentes
O cenário internacional também recomenda cautela. A expansão dos data centers de inteligência artificial está consumindo grandes quantidades de memórias e semicondutores. Fabricantes globais passaram a direcionar parte de sua capacidade para componentes de maior desempenho e rentabilidade destinados a essa infraestrutura.

A consultoria IDC avalia que essa mudança está pressionando a disponibilidade e os preços das memórias DRAM e NAND utilizadas em computadores, smartphones e outros eletrônicos de consumo.
Em projeção atualizada em junho, a IDC estima queda de 11,3% nos embarques mundiais de computadores pessoais em 2026. Ao mesmo tempo, os preços médios desses equipamentos poderão crescer 17%, o que ajuda a explicar por que uma indústria pode registrar retração no número de unidades e, ainda assim, apresentar receitas relativamente mais resistentes.
Para os smartphones, a projeção mundial atualizada pela consultoria em maio aponta redução de 13,9% nos embarques em 2026. A estimativa considera a escassez de memórias e outras pressões sobre custos e cadeias de abastecimento.

Essas projeções são globais e não podem ser transferidas automaticamente para o mercado brasileiro nem para a produção de Manaus. Elas mostram, porém, que uma cadeia dependente de componentes importados permanece exposta às decisões dos grandes fabricantes mundiais, às disputas por capacidade produtiva e às oscilações de preços.

O crescimento da receita de um setor, portanto, precisa ser analisado junto com produção, custos, quantidade comercializada e valor médio dos produtos. Faturamento maior nem sempre significa aumento equivalente de volume ou ampliação da competitividade.

A oportunidade de avançar sobre os componentes
A pressão internacional sobre memórias torna especialmente oportuna a parceria anunciada entre a Tera Indústria de Semicondutores, instalada em Manaus, e a chinesa Biwin, especializada em soluções de memória e armazenamento.
O acordo prevê cooperação para fabricação local, transferência de tecnologia, desenvolvimento de produtos, engenharia e planejamento industrial na área de semicondutores de memória.
As empresas ainda não divulgaram investimentos, volumes de produção, empregos ou cronograma. O comunicado também não detalha onde cada produto será fabricado nem qual participação caberá especificamente à unidade de Manaus.
A presença da Tera na capital amazonense, entretanto, coloca o PIM no horizonte da iniciativa. A empresa atua no encapsulamento, na montagem e nos testes de semicondutores, etapas importantes para aproximar a cadeia de componentes das fábricas de celulares, computadores e outros equipamentos eletrônicos.
Essa aproximação pode reduzir parte da exposição a fornecedores externos, encurtar processos de qualificação e criar oportunidades em engenharia, testes, desenvolvimento e formação profissional.
Embora essa parceria não coloque a capital amazonense entre os centros mais avançados de fabricação de chips, há espaço para conquistar posições em etapas como encapsulamento, montagem, testes, módulos de memória, armazenamento, sensores e semicondutores de potência.

Novos projetos ampliam o alcance do segmento
Outras iniciativas recentes ajudam a mostrar como as fronteiras entre informática, eletrônica, conectividade e automação estão se tornando menos definidas.
Entre os projetos aprovados administrativamente pela Suframa está o da Jabil Industrial do Brasil, destinado à produção de terminais de captura de dados. A proposta prevê R$ 59,4 milhões em investimentos e a criação de 50 empregos.
Os valores ainda precisarão ser convertidos em aportes executados, produção e contratações efetivas. Mesmo assim, o projeto indica uma possibilidade de diversificação em equipamentos utilizados na coleta, no processamento e na transmissão de informações.
Manaus também começa a receber projetos relacionados a medidores inteligentes, repetidores e concentradores de sinais para redes elétricas, automação industrial e diferentes equipamentos conectados.
Esse conjunto ainda não representa uma transformação consolidada no perfil do polo. Algumas iniciativas estão em implantação, enquanto outras precisam apresentar cronogramas, investimentos e resultados mensuráveis. Em conjunto, porém, sinalizam que a tecnologia está deixando de ocupar categorias industriais isoladas e passando a integrar energia, mobilidade, meios de pagamento, logística e infraestrutura.
É justamente nesse encontro que podem surgir novas oportunidades para o Amazonas.

Escala industrial precisa gerar conhecimento
A participação de 22,01% demonstra que o PIM possui mercado, fabricantes e volume suficientes para sustentar uma agenda mais ambiciosa. Essa escala pode ajudar a atrair fornecedores de componentes, laboratórios, centros de engenharia, desenvolvedores e empresas especializadas em testes e certificações.
O futuro do setor não será medido apenas pela quantidade de computadores ou celulares produzidos. Também dependerá da capacidade de desenvolver componentes, incorporar inteligência aos equipamentos, formar profissionais, gerar propriedade intelectual e utilizar os investimentos obrigatórios em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) para solucionar problemas da indústria e da região.
O varejo possui uma função importante nessa cadeia porque percebe rapidamente como o consumidor muda e quais tecnologias ganham espaço. A indústria, por sua vez, oferece escala e capacidade produtiva. Universidades, institutos de ciência e tecnologia e startups podem transformar demandas em produtos, programas e soluções.

A oportunidade está em aproximar esses agentes

Para isso, os resultados do segmento precisam ser acompanhados por outros indicadores: quanto foi investido em pesquisa, quantos produtos receberam engenharia local, quantos fornecedores foram incorporados, quantos profissionais foram formados e que tecnologias foram desenvolvidas ou aperfeiçoadas no Amazonas.
Os 22,01% do faturamento confirmam a força industrial dos Bens de Informática no PIM. Daqui pra frente, é fazer com que essa participação também se traduza em mais engenharia, pesquisa, componentes, profissionais qualificados e decisões tecnológicas tomadas em Manaus.
Produzir tecnologia é importante. Participar de sua criação é o avanço que poderá definir o lugar do Amazonas na próxima etapa da economia digital.

Cristina Monte é jornalista, colunista e analista de negócios, especializada na cobertura de indústria, inovação e desenvolvimento econômico na Amazônia.

FOTO/DIVULGAÇÃO – IA

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