Manaus além das fábricas: o custo da informalidade para a economia e o Polo Industrial

Fortalecer os pequenos negócios e conectá-los à indústria é um caminho para ampliar empregos, proteção social e arrecadação sem sufocar quem empreende.

Manaus convive com um contraste econômico: abriga um polo industrial de grande porte, mas está inserida em um estado onde mais da metade dos trabalhadores ocupados atua na informalidade. No segundo trimestre de 2026, essa proporção chegou a 51,7% no Amazonas, contra 37,4% no Brasil, segundo o IBGE. Embora o indicador seja estadual, e não exclusivo da capital, ele evidencia um desafio regional: transformar atividade econômica em trabalho protegido e negócios sustentáveis. A taxa amazonense recuou em relação ao trimestre anterior, mas permanece elevada. Não se trata de desvalorizar quem encontra no trabalho informal uma alternativa de sobrevivência, e sim de compreender por que tantas pessoas ainda não conseguem acessar as oportunidades da economia formal.

A dimensão do Polo Industrial de Manaus ajuda a entender essa contradição. De janeiro a maio de 2026, o PIM registrou faturamento de R$ 99,64 bilhões e média mensal de 130.605 empregos, conforme a Suframa. Esse faturamento não equivale ao PIB nem à arrecadação do Amazonas, mas demonstra a escala de um importante motor econômico regional. Seu impacto ultrapassa as fábricas: salários e compras empresariais movimentam alimentação, transporte, manutenção, comércio e serviços. Entretanto, a força industrial, sozinha, não garante que todos participem dessa geração de riqueza. Quando pequenos empreendimentos permanecem sem organização e regularidade, perdem oportunidades de fornecer para empresas maiores, e parte do potencial de desenvolvimento local deixa de ser aproveitada.

Para a economia de Manaus, a informalidade pode significar renda menos previsível, dificuldade de acesso ao crédito empresarial e menor capacidade de investimento. Um prestador de serviços que não registra suas receitas nem conhece seus custos, por exemplo, tem mais dificuldade para comprovar faturamento, financiar equipamentos e contratar. Na esfera pública, operações não declaradas podem reduzir a arrecadação de tributos devidos e dificultar o planejamento econômico. Isso não significa arrecadação inexistente: trabalhadores informais também pagam impostos embutidos no consumo, e a informalidade é estimada por pesquisas estatísticas. Tampouco é possível atribuir uma eventual queda de receita municipal ou estadual a esse fenômeno sem estudo específico. O problema é a distância entre a atividade realizada e sua integração aos mecanismos de tributação, proteção e financiamento.

Nas empresas do PIM, os efeitos tendem a ocorrer principalmente pelas relações com fornecedores e pelo ambiente econômico ao redor das fábricas. Pequenos negócios sem documentação fiscal, capacidade técnica comprovada ou processos adequados podem encontrar barreiras para atender às exigências de contratação industrial. Isso reduz as possibilidades de desenvolver fornecedores locais e pode levar compradores a buscar alternativas fora da região. Contratações irregulares, quando ocorrem, também podem gerar riscos contratuais, trabalhistas e de continuidade do serviço. Esses são mecanismos econômicos plausíveis, não uma afirmação de que a informalidade já tenha provocado determinada perda de faturamento no Polo. Da mesma forma, a produção industrial depende de fatores como demanda nacional, crédito, logística e competitividade; não seria correto explicar seu desempenho apenas pelas condições do mercado informal manauara.

O problema também alcança o futuro das famílias e da Previdência. Trabalho informal não significa, obrigatoriamente, ausência de contribuição ao INSS: um trabalhador por conta própria pode contribuir individualmente. Entretanto, quando a contribuição não ocorre ou é interrompida com frequência, aumentam os riscos de desproteção e as dificuldades para cumprir requisitos previdenciários. Em Manaus, isso pode ampliar a dependência financeira de familiares e a demanda por assistência pública diante da velhice ou da perda da capacidade de trabalhar. Para o sistema nacional, uma base contributiva mais ampla ajuda no financiamento, embora não resolva, isoladamente, os desafios do envelhecimento populacional. Educação financeira é parte da resposta, mas precisa caminhar com renda suficiente, oportunidades e regras acessíveis.

Uma política adequada para Manaus deve começar pela redução das dificuldades concretas de formalizar e manter um negócio. Prefeitura e governo estadual podem, dentro de suas competências, simplificar procedimentos, integrar atendimentos, revisar exigências desnecessárias e oferecer orientação contábil e gerencial acessível. Mudanças nos regimes tributários nacionais, por sua vez, dependem de decisões em âmbito federal. A prioridade deve ser uma carga compatível com o porte da empresa, transições previsíveis quando ela cresce e incentivos com prazo, critérios e avaliação de resultados. Também é essencial ensinar precificação, fluxo de caixa, separação das contas pessoais e empresariais e planejamento dos tributos. Abrir um CNPJ sem condições de sustentar a operação apenas transforma a informalidade em uma empresa registrada, porém endividada ou inativa.

O passo estratégico seguinte é aproximar esses empreendedores das oportunidades do Polo Industrial. Uma articulação entre poder público, Suframa, entidades empresariais e instituições de capacitação poderia ampliar programas de desenvolvimento de fornecedores, com formação técnica, orientação para emissão de notas, padrões de qualidade, crédito responsável e encontros comerciais. As indústrias também podem contribuir com requisitos claros e prazos de pagamento compatíveis com a realidade dos pequenos fornecedores. O sucesso deve ser medido por empresas que permanecem ativas, contratos conquistados, empregos protegidos e arrecadação sustentável — não apenas pela quantidade de novos registros. Fortalecer a formalização é complementar a potência do PIM com uma economia local mais diversificada. Manaus precisa transformar a riqueza que passa pelas fábricas em oportunidades duradouras também fora delas.

Alon Hans é engenheiro de Telecomunicações, consultor e educador financeiro, palestrante, professor, articulista e escritor. Atua há mais de 15 anos com consultoria para pessoas e empresas, com foco em educação financeira, empreendedorismo, negócios e investimentos.
Possui quase 26 anos de experiência em indústrias nacionais e multinacionais, com atuação nas áreas de Produção, Engenharia, Projetos e Gestão Operacional.
Contato – @alonhansfinanceiro

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