A carne de jacaré manejado na Reserva Extrativista (Resex) Lago do Cuniã, em Porto Velho, avançou uma etapa em sua busca por uma Indicação Geográfica (IG). No início de setembro, uma equipe iniciou o levantamento de documentos, registros históricos e informações sobre a comunidade, a cooperativa e o próprio manejo. O trabalho é conduzido pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) em Rondônia, em parceria com a Prefeitura de Porto Velho, e reúne a Cooperativa de Pescadores, Aquicultores, Agricultores e Extrativistas da Resex Cuniã (COOPCUNIÃ), a Associação dos Moradores Extrativistas e Produtores Rurais da Reserva Extrativista do Lago do Cuniã (ASMOCUN), o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
O reconhecimento, no entanto, ainda está distante de ser concedido. Não há confirmação pública de que o pedido tenha sido protocolado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), e a estimativa divulgada pelos responsáveis é de que a construção do processo leve entre um ano e meio e dois anos. A Indicação Geográfica poderá agregar valor, identificar a procedência e ampliar o reconhecimento comercial da carne, mas não substitui licenças ambientais, inspeção sanitária, definição de cotas, rastreabilidade ou autorização para o manejo.
É justamente nessa condição que está o valor mais sensível da iniciativa: o jacaré não pode ser visto apenas como matéria-prima de uma nova cadeia comercial. É uma espécie da fauna amazônica e parte do equilíbrio dos ambientes aquáticos. Transformar seu manejo em atividade econômica só faz sentido quando cada abate é amparado por monitoramento populacional, critérios científicos, fiscalização e capacidade comprovada de reposição das populações. Sem esses controles, a bioeconomia perde o princípio que deveria diferenciá-la da exploração predatória.
No Lago do Cuniã, o desafio é conciliar conservação e renda para as famílias que construíram sua vida na reserva. Uma futura Indicação Geográfica poderá ajudar a impedir que o produto seja tratado como carne exótica sem origem, história ou responsabilidade ambiental. Não se trata apenas de abrir novos mercados: o reconhecimento deverá proteger um modo de produção limitado pelo próprio ritmo da natureza. Nesse caso, crescer não significa necessariamente abater mais, mas gerar mais valor, conhecimento e renda a partir de uma produção controlada.
A carne de jacaré do Cuniã pode se tornar uma referência da bioeconomia amazônica. Para isso, a certificação precisará funcionar como compromisso, e não apenas como instrumento de promoção comercial: compromisso com a espécie, com o território e, sobretudo, com as comunidades que dependem da floresta conservada, e precisam que ela permaneça viva por muito tempo!
Cristina Monte é jornalista, colunista e analista de negócios, com atuação na cobertura de indústria, inovação e desenvolvimento econômico na Amazônia.
FOTO/GOVERNO DE RONDÔNIA


