Acordo entre Tera e Biwin aproxima o PIM da cadeia global de semicondutores

A parceria firmada entre a Tera Indústria de Semicondutores e a chinesa Biwin aproxima a indústria brasileira de tecnologias de memória presentes em celulares, computadores, servidores e diferentes equipamentos eletrônicos. O acordo prevê fabricação local, transferência de tecnologia, desenvolvimento de produtos e cooperação nas áreas de engenharia e planejamento industrial.

A Biwin atua globalmente com soluções como memórias DRAM, componentes eMMC e UFS, módulos DDR4 e DDR5, além de unidades de armazenamento SSD. A Tera, por sua vez, é especializada no encapsulamento, na montagem e nos testes de semicondutores e possui unidade industrial em Manaus.

A empresa é vinculada ao Grupo Digitron, que acumula mais de quatro décadas de experiência na fabricação de computadores, smartphones e outros equipamentos eletrônicos para diferentes marcas. Essa ligação acrescenta um elemento estratégico à parceria: enquanto a Digitron conhece as demandas das linhas de montagem e mantém relacionamento com fabricantes de produtos finais, a Tera atua em etapas anteriores da cadeia, relacionadas à preparação e à qualificação dos componentes de memória.
Embora o comunicado das empresas não detalhe onde cada produto será fabricado nem apresente investimentos, empregos, volumes ou cronograma de produção, a presença da Tera em Manaus coloca o Polo Industrial de Manaus (PIM) no horizonte dessa iniciativa. O polo reúne justamente fabricantes de smartphones, computadores e outros equipamentos eletrônicos que formam o mercado potencial das novas soluções.

A parceria pode contribuir para aproximar fornecedores de memória das linhas de produção, reduzir parte da exposição a oscilações internacionais e criar condições para que atividades de engenharia, qualificação, testes e desenvolvimento sejam realizadas no país — uma oportunidade que vai além da simples substituição de componentes importados.

Esse caminho está alinhado ao desafio atual da indústria brasileira de semicondutores. O país dificilmente competirá, no curto prazo, com as gigantes que investem dezenas de bilhões de dólares na fabricação das lâminas de silício mais avançadas. Entretanto, há espaço em etapas como projeto, encapsulamento, montagem, testes, módulos de memória, sensores e semicondutores de potência.
Manaus já possui escala na fabricação de produtos que utilizam esses componentes. Transformar essa demanda em capacidade tecnológica local é um passo importante para que o polo deixe de participar apenas da ponta final da cadeia e avance sobre etapas de maior valor agregado.
Para que esse potencial se confirme, será necessário observar como a parceria será implantada: quais produtos serão efetivamente fabricados no Brasil, que tecnologias serão transferidas, quanto será investido e qual participação caberá à unidade de Manaus. Também será importante saber se haverá formação de profissionais, atividades de pesquisa e desenvolvimento e contratação de fornecedores locais.

O acordo entre Tera e Biwin, portanto, ainda precisa ser traduzido em produção, conhecimento e resultados mensuráveis. Mesmo assim, ele sinaliza uma possibilidade concreta para o PIM: utilizar a força de sua indústria eletroeletrônica não apenas para consumir semicondutores, mas também para conquistar uma participação maior na cadeia que sustenta a economia digital.

Cristina Monte é jornalista, colunista e analista de negócios, especializada na cobertura de indústria, inovação e desenvolvimento econômico na Amazônia.

FOTO/DIVULGAÇÃO – IA

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