A redução do nível das águas na região amazônica volta a colocar a logística de Manaus em estado de atenção. A CMA CGM anunciou que aplicará uma Low Water Surcharge (LWS), sobretaxa destinada a compensar os impactos operacionais provocados pela baixa dos rios e pelas consequentes restrições à navegação.
O adicional foi estabelecido em US$ 753 por TEU, unidade equivalente a um contêiner de 20 pés, e será aplicado a todos os tipos de equipamentos nas operações internacionais abrangidas pelo comunicado da companhia.
Para cargas provenientes de mercados de longo curso com destino a Manaus, a cobrança entrará em vigor em 6 de setembro de 2026.
Já nas exportações partindo de Manaus para destinos de longo curso, a aplicação está prevista para 5 de outubro de 2026.
Calado menor significa menos capacidade
O problema vai muito além da redução visual do nível dos rios.
Com a diminuição da profundidade disponível para navegação, os navios passam a enfrentar limitações de calado. Na prática, isso pode significar redução da quantidade de carga transportada por viagem, alterações na programação das embarcações e necessidade de adoção de soluções operacionais adicionais.
Segundo as avaliações técnicas consideradas pela CMA CGM, as restrições de navegabilidade podem começar por volta da semana 40 de 2026, permanecendo pelo menos até a semana 52, justamente durante o período crítico da vazante.
A companhia aponta que a redução do calado navegável poderá provocar diminuição significativa na capacidade de transporte e no aproveitamento dos navios.
Custos adicionais entram na conta
A sobretaxa anunciada pelo armador busca compensar uma série de despesas adicionais que podem surgir durante o período de baixa das águas.
Entre elas estão operações extras de movimentação de cargas, redução da capacidade dos navios, alterações na alocação das embarcações, mudanças de rota, custos adicionais de praticagem e outras medidas necessárias para preservar a continuidade do serviço.
Existe ainda a possibilidade de utilização de píer flutuante, dependendo da evolução das condições de navegabilidade.
Caso essa estrutura se torne necessária para atracação, movimentação ou transferência segura dos contêineres, a CMA CGM já sinalizou que o valor da sobretaxa poderá ser revisto para incorporar os novos custos operacionais.
Manaus volta a enfrentar desafio sazonal
A situação não é inédita.
A logística amazônica convive historicamente com a sazonalidade dos rios, mas episódios recentes de vazantes severas demonstraram como alterações significativas no nível das águas podem atingir diretamente o transporte marítimo e fluvial.
Para Manaus, a questão possui dimensão econômica ainda maior devido à importância do transporte aquaviário para o abastecimento regional e, principalmente, para a movimentação de insumos e produtos relacionados ao Polo Industrial de Manaus (PIM).
Quando o calado diminui, toda a cadeia precisa se adaptar.
Menos carga por navio pode representar necessidade de viagens adicionais, transbordos, mudanças operacionais e aumento do custo logístico por contêiner transportado.
Maersk divulga comunicação preventiva
A CMA CGM não é a única grande companhia de navegação preparando sua operação para a vazante de 2026.
A Maersk também comunicou aos clientes a possibilidade de aplicação de uma Low Water Surcharge para cargas com origem ou destino em Manaus.
O valor informado como referência é de US$ 1.228 por contêiner seco, com diferentes datas previstas de acordo com a região de origem da carga. A companhia esclareceu, entretanto, que a comunicação tem caráter preventivo, voltado ao planejamento e à previsibilidade das operações.
Segundo a Maersk, a eventual cobrança somente será aplicada caso as condições hidrológicas previstas se materializem e provoquem impactos operacionais efetivos.
As análises utilizadas pela companhia indicam possibilidade de restrições à navegação a partir de outubro, com maior probabilidade de impactos operacionais entre as semanas 43 e 47.
Os comunicados dos armadores demonstram que a preocupação com a vazante passou a fazer parte do planejamento logístico para o segundo semestre, embora a efetivação das medidas dependa das condições estabelecidas por cada companhia.
Desafio para a previsibilidade logística
Os anúncios e as comunicações preventivas sobre possíveis sobretaxas trazem novamente ao debate uma das principais particularidades logísticas da Região Norte.
Enquanto nos portos marítimos tradicionais as limitações de calado estão relacionadas principalmente aos canais de acesso, à dragagem e às condições oceanográficas, na Amazônia existe uma variável adicional: o comportamento sazonal dos rios.
Essa condição pode interferir diretamente na quantidade de contêineres que um navio consegue transportar.
Para importadores, exportadores e operadores logísticos, acompanhar o comportamento das águas passa a ser tão importante quanto monitorar fretes, disponibilidade de equipamentos e janelas de atracação.
A CMA CGM informou que continuará acompanhando as condições do sistema fluvial amazônico e poderá atualizar as medidas adotadas conforme a evolução dos níveis dos rios.
A vazante de 2026 ainda se aproxima de seu período mais sensível, mas os comunicados dos armadores já funcionam como um sinal de atenção para o mercado e para o planejamento das operações.
Atualização: A matéria foi atualizada após esclarecimento encaminhado pela assessoria de imprensa da Maersk. Diferentemente do que constava na versão original, a comunicação divulgada pela companhia aos clientes tem caráter preventivo. Segundo a empresa, a eventual cobrança da sobretaxa somente será aplicada caso as condições hidrológicas previstas se materializem e provoquem impactos operacionais efetivos.
Fonte: Jornal Portuário e esclarecimento da assessoria de imprensa da Maersk.
Foto: Divulgação.


