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Como escola pública em município que já esteve entre mais desmatados da Amazônia se destacou pela sustentabilidade

A algumas ruas das margens do rio Tapajós, em Itaituba, sudoeste do Pará, a escola pública Professora Maria das Graças Escócio Cerqueira ganhou destaque por estar fora da rota quando o assunto é sustentabilidade no município, que já esteve na lista dos maiores desmatadores da Amazônia Legal, e é conhecido como a capital brasileira da lavagem de ouro ilegal.

No dia 13 de junho, a escola estadual de ensino médio ganhou reconhecimento internacional ao ser selecionada entre as 10 melhores do “Prêmio Melhores Escolas do Mundo” (World’s Best School Prizes) na categoria “Ação Ambiental”.

A unidade foi a única escola brasileira escolhida na categoria ambiental, por causa de uma ação realizada com os alunos do Atendimento Educacional Especializado (AEE), por meio do “Projeto Semente de Ipê Amarelo”. O resultado da votação para decidir os campeões será em novembro.

Fundada em 2004, a escola busca educar os alunos como “guardiões ambientais da Amazônia”. No espaço, professores, alunos e colaboradores se desafiam a encontrar soluções práticas para combater o desmatamento e envolver as comunidades para além dos muros da instituição.

Inclusão e sustentabilidade: como tudo começou?

 

‘Brechó – Moda Circular e Sustentável’:

Quem teve a ideia de colocar a escola para competir na premiação foi a professora Eliude Ramos, de 37 anos. Ela trabalha na instituição desde 2020 e leciona no Atendimento Educacional Especializado (AEE), voltado para pessoas com deficiência.

“Em 2022 houve um evento na escola onde os alunos tiveram que desenvolver atividades com o tema sustentabilidade. Os alunos formaram grupos e começaram a criar projetos com a temática”, relembrou Eliude.

 

Foi assim que os alunos da educação especial juntos aos alunos sem deficiência fizeram um brechó ecológico.

Os estudantes surdos, por exemplo, ensinavam ao setor de vendas como comunicar peças de roupas, cores e formas de pagamentos usando a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS). Já os alunos com deficiência intelectual etiquetavam as peças e pintavam os incensários e as bolsas ecológicas confeccionadas por alunos sem deficiência

Plantação de mudas

A iniciativa virou artigo científico apresentado no Instituto Federal do Pará (IFPA) e recebeu menção honrosa.

No evento, os alunos da escola doaram sementes de ipês amarelos, colhidas das quatro árvores que ficam no espaço da instituição. Assim, a ideia virou “Projeto Semente de Ipê Amarelo”.

Com as sementes que sobraram da doação, os estudantes e a professora fizeram um “berçário improvisado”, plantando as sementes dos quatro ipês próximas umas das outras em um espaço da escola, para que as plantas germinassem.

Foi participando de competições nacionais que englobavam o tema, que a iniciativa aumentou as espécies de vegetais cultivadas, com açaí, buriti e jatobá, e ganhou mais pessoas colocando a mão na massa.

Os participantes receberam orientações sobre como preparar o solo, cavar buracos, além de terem a chance de jogar as sementes no meio ambiente, para germinarem.

Ao todo, segundo a escola, 280 mudas foram plantadas na região pelos “guardiões da Amazônia”.

🪴 ‘Talento pela preservação’

 

Ao todo, a unidade conta com 273 estudantes, todos do ensino médio. Um deles é Albert Mateus Rodrigues Pereira, de 19 anos, estudante com autismo do 2º ano do ensino médio em tempo integral na escola.

“Participo do projeto de acordo com as ações organizadas e desenvolvidas, em apresentações em instituições públicas, para apresentar os aspectos que eu tenho aprendido, mostrando o nosso talento pela preservação do meio ambiente e o nosso respeito por ele”, contou Albert.

 

Nas palavras da própria mãe, Francidalva Rodrigues, para o filho, mudanças são sempre muito desafiadoras, mas foi nesta escola que Albert passou a entender melhor as diferenças do mundo, enxergando as próprias potencialidades.

“Após os projetos de meio ambiente da escola, ele reforçou ainda mais o desejo de ser um futuro biólogo“, compartilhou a mãe, com orgulho.

 

Albert também fez questão de destacar a prática em Tai Chi Chuan, uma arte marcial que, segundo ele mesmo, “mexe com o espírito, com o corpo e com a mente”. As aulas ocorrem dentro da unidade de ensino.

“Não podemos desistir de equilibrar o meio ambiente com a sociedade, porque há esperança de que o meio ambiente possa viver livremente com a sociedade sem ser destruído. Conviver juntos em harmonia”, completou.

 

Plantando uma nova realidade

 

Itaituba já esteve na lista das cidades que mais desmataram na Amazônia Legal. O município ficou entre os cinco maiores índices analisados em junho de 2022. Os dados foram divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Alguns meses depois, em fevereiro de 2023, o governador Helder Barbalho (MDB) anunciou a assinatura do decreto de emergência ambiental para o reforço da segurança em 15 municípios onde há garimpo e desmatamento ilegal no Pará, incluindo Itaituba.

Nos levantamentos mais recentes, as cidades que integram o decreto apresentaram queda no alerta de desmatamento de 66%, entre agosto do ano passado e fevereiro de 2024, segundo o Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real (Deter), do Inpe.

Sobre Itaituba, a Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas) informou que Itaituba teve redução de 68% no desmatamento em 2023, em relação ao ano anterior, 2022. Em área, no total, são 237 km² de redução, principalmente em áreas de atividade ilegal nas áreas estaduais.

Prêmio Melhores Escolas do Mundo 2024 🏆

Como uma semente na cidade, o projeto de biodiversidade da escola pública Professora Maria das Graças Escócio Cerqueira é um amostra da ação humana para um futuro mais responsável com o próprio meio em que se vive.

A votação pública para eleger as finalistas do Prêmio Melhores Escolas do Mundo 2024 (World’s Best School Prizes), na categoria Ação Ambiental, deverá ter o resultado divulgado em agosto.

Em setembro, mais uma etapa classificatória chegará a apenas 3 escolas por grupo. Os resultados finais sairão em novembro de 2024, após decisão de educadores, ONGs, empreendedores sociais e representantes do governo, da sociedade civil e do setor privado.

O prêmio é uma iniciativa que reconhece projetos educacionais que impactam positivamente a vida dos estudantes de forma criativa.

Fonte: G1.

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