Crise climática agrava fome na Amazônia e expõe vulnerabilidade de municípios do Acre

A combinação entre mudanças climáticas, desigualdade social e insegurança alimentar tem ampliado a vulnerabilidade da população da Amazônia Legal, especialmente em estados como o Acre. Dados do sistema Adapta Brasil, plataforma criada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), revelam que 62% dos municípios amazônicos não possuem estrutura suficiente para enfrentar os impactos da crise climática, tornando a região a mais vulnerável do país quando o assunto é segurança alimentar.

O levantamento aponta que a Amazônia Legal concentra os maiores índices de fragilidade relacionados à produção de alimentos, logística, planejamento e capacidade de resposta diante de eventos extremos como secas, enchentes e estiagens prolongadas.

No Acre, os reflexos dessa vulnerabilidade já foram sentidos de forma intensa nos últimos anos. Em 2021, uma das maiores enchentes da história do estado atingiu mais de 120 mil pessoas, provocando perdas de moradias, destruição de plantações e prejuízos à produção rural, principal fonte de renda de milhares de famílias acreanas.

Segundo especialistas ouvidos pela Rede Cidadã InfoAmazonia, os impactos climáticos atingem diretamente agricultores familiares, extrativistas, pescadores e populações ribeirinhas, comprometendo o abastecimento e o acesso à alimentação de qualidade.

O índice de vulnerabilidade do Adapta Brasil mede fatores como capacidade adaptativa dos municípios, estrutura logística, planejamento público e sensibilidade das regiões às mudanças climáticas. Também são considerados indicadores ligados à produção agrícola e ao acesso da população a alimentos básicos.

Embora Mato Grosso lidere o ranking de municípios mais vulneráveis da Amazônia Legal, com 24 cidades em situação crítica, estados da região Norte enfrentam problemas estruturais semelhantes. Tocantins aparece em seguida, com 15 municípios vulneráveis, e o Maranhão registra dez.

Os dados revelam ainda que, dos cerca de 1,7 mil municípios brasileiros classificados com baixa vulnerabilidade climática, apenas 50 estão localizados na Amazônia Legal.

Pesquisadores alertam que as alterações no clima já modificam ciclos produtivos tradicionais da região. Agricultores relatam dificuldade para definir períodos de plantio devido às mudanças no regime de chuvas.

A agricultora familiar Cleide Nascimento, do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) em Rondônia, afirmou à Rede Cidadã InfoAmazonia que o comportamento do clima mudou drasticamente.

“O tempo ficou meio doido. Tem período que chove muito e as plantações não vingam”, relatou.

O coordenador do Adapta Brasil e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Jean Ometto, afirmou que a baixa capacidade adaptativa da Amazônia representa um dos principais desafios do país.

Segundo ele, problemas de logística, abastecimento, gestão pública e baixa capacidade socioeconômica tornam a população amazônica mais exposta aos impactos climáticos e à insegurança alimentar.

Além das enchentes, secas severas também têm afetado a região. No Amazonas, por exemplo, o estado enfrentou em 2022 mais uma cheia histórica — a oitava desde 2009 — colocando 75% dos municípios em situação de emergência.

No mesmo ano, eventos extremos atingiram também o Amapá, onde mais de 30 mil pessoas foram afetadas por enchentes.

No Acre, além das enchentes, comunidades rurais convivem com perdas agrícolas causadas por excesso de chuva e mudanças no comportamento dos rios.

A crise climática também já afeta atividades tradicionais da Amazônia. Estudos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) mostram que eventos climáticos extremos reduziram drasticamente a produção de castanha-da-amazônia em determinados períodos. Em 2017, a safra teve volume oito vezes menor que o habitual devido aos efeitos do fenômeno El Niño entre 2015 e 2016.

A produção de pescado e a cultura do açaí também sofrem impactos provocados pela irregularidade das cheias e secas.

Outro fator apontado como agravante da insegurança alimentar é o avanço do desmatamento e da agropecuária sobre áreas florestais da Amazônia Legal.

Dados do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) mostram que Mato Grosso foi um dos estados mais desmatados da Amazônia Legal em 2022, acumulando cerca de 152 mil quilômetros quadrados devastados.

Segundo o Instituto Centro de Vida (ICV), a expansão do agronegócio, especialmente da soja e do milho, tem alterado o regime climático regional, reduzido áreas de produção tradicional e ampliado o uso de agrotóxicos.

Especialistas afirmam que essas mudanças comprometem a produção de alimentos destinados ao abastecimento local, afetando principalmente comunidades tradicionais e pequenos agricultores.

Os efeitos da fome também apresentam forte desigualdade racial, regional e de gênero. Dados do II Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar, produzido pela Rede PENSSAN, mostram que mulheres, pessoas negras e moradores da região Norte estão entre os grupos mais afetados.

A pesquisa aponta que a segurança alimentar está presente em 53,2% dos lares de pessoas brancas, enquanto entre famílias negras esse índice cai para 35%.

Quando a mulher é a principal responsável pela família, o percentual de lares em situação de fome chega a 19,3%. Nos domicílios chefiados por homens, o índice é de 11,9%.

Pesquisadores também alertam para o aumento do consumo de alimentos ultraprocessados nas regiões mais pobres do país, impulsionado pela queda da renda e pela dificuldade de acesso a alimentos frescos.

Segundo estudo citado na reportagem, o consumo excessivo desses produtos está associado a cerca de 57 mil mortes anuais no Brasil.

Durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, políticas públicas voltadas ao combate à fome sofreram redução ou descontinuidade. Entre as medidas apontadas por especialistas está a extinção do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), em 2019, além da redução de investimentos em programas como o Bolsa Família e o Programa Cisterna.

Com a mudança de governo, o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social anunciou a retomada do Consea e do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), voltado à compra de produção de pequenos agricultores.

Especialistas defendem que as políticas públicas de combate à fome tenham foco específico na Amazônia, levando em consideração as características geográficas, sociais e climáticas da região.

Entre as medidas apontadas estão investimentos em agricultura familiar, infraestrutura logística, acesso à água, valorização da produção florestal e pagamento por serviços ambientais às populações que preservam a floresta.

Fontes: Rede Cidadã InfoAmazonia, Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), Rede PENSSAN e Universidade Federal do Pará (UFPA).

Foto: Reprodução

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