Startup reúne mulheres para impulsionar oportunidades de unir negócios e maternidade

Pesquisa da Rede Mulher Empreendedora aponta que 75% das mulheres que empreendem fazem isso depois que os filhos chegam
/SENIVPETRO – FREEPIK.COM/DIVULGAÇÃO/JC
Apesar de ainda conquistarem remuneração inferior à dos homens, o empreendedorismo segue atraindo o público feminino como alternativa de renda. A necessidade de estar mais perto dos filhos fez Juliana Barbosa dos Santos, de 39 anos, deixar o mercado formal de trabalho e desenvolver a sua própria empresa. Há quatro anos, ela deu uma nova cara para o dindin – conhecido também como geladinho ou sacolé – e, hoje, vende o produto em feiras, clubes, festas infantis e até casamentos.
“A minha mãe já fazia, há muito tempo, para ajudar nas despesas da casa. Com o tempo, fui desenvolvendo a ideia e inovando um pouco mais. Temos vários sabores – de frutas, chocolates e até alcoólicos, para festas de adultos”, contou. A Vila do Dindin nasceu quando seu filho mais novo tinha um ano. “Nasceu dessa necessidade de estar perto deles, que, às vezes, trabalhando fora, eu não conseguia. E está dando certo”, disse ela, que é mãe de três filhos.
Juliana participou, neste mês, de uma feira de mulheres empreendedoras, em Brasília, promovida pela rede Maternativa, primeira startup (pequena empresa focada em tecnologia para novos modelos de negócios) de impacto social voltada ao empreendedorismo materno no Brasil. Cerca de 20 mulheres apresentaram seus produtos e serviços durante o evento.
Essa foi a terceira edição da feira, que já passou por Recife (PE) e São Paulo (SP), com workshops e palestras gratuitas para as mães empreendedoras. “Precisamos mostrar para a sociedade que mulheres mães estão à frente dos mais diversos tipos de negócios e que, quando você direciona sua compra para uma mãe empreendedora, está fomentando uma economia extremamente colaborativa”, explicou Vivian Abukater, sócia da Maternativa.
Segundo ela, mulheres mães que têm dinheiro e independência financeira investem na educação dos filhos, no cuidado e no bem-estar da família. “A ideia é promover, em Brasília, esse pensamento, de fortalecer essa economia e ajudar as mulheres mães a encontrar independência financeira”, explicou.
A dificuldade que teve durante a amamentação do filho fez a enfermeira Juliana Gomes, de 28 anos, desenvolver sua própria consultoria em amamentação, a Seio Materno. Formada há quatro anos, ela ainda busca um trabalho no mercado formal, mas espera agregar renda com o novo negócio. “Na primeira semana de nascimento do meu filho, tive problemas, e uma pessoa me auxiliou e me abriu esse olhar para a consultoria de amamentação, que eu nem sabia que existia. Fiz o curso e me especializei”, disse, contando que o trabalho flexível também pode ser conciliado com a maternidade.
Há um ano e meio, a funcionária pública Moara Giasson, de 40 anos, teve seu primeiro filho e, com o marido, desenvolveu a Moaralê Saboaria Natural. O casal usa óleos e extratos do Cerrado e compra a matéria-prima de extrativistas e agricultores familiares, buscando valorizar essa cadeia com produtos de qualidade a preços acessíveis.
O novo negócio também foi um refúgio para Moara durante a licença-maternidade. “No início, a criança demanda 100% do seu tempo, mas ter essa outra responsabilidade era um momento de estar pensando em mim, apesar de ser a empresa, de sair desse ciclo de ser só a provedora (do filho). Às vezes, eu fazia mídia social na madrugada, enquanto estava amamentando”, contou.
A sócia da Maternativa, Vivan Abukater, citou pesquisa da Fundação Getulio Vargas que mostra que 48% das mulheres deixam o mercado de trabalho antes do filho completar um ano de idade. Por outro lado, pesquisa da Rede Mulher Empreendedora aponta que 75% das mulheres que empreendem fazem isso depois que os filhos chegam.
De acordo com Vivian, esse é um empreendedorismo de necessidade, não de oportunidade, e, por isso, nem sempre elas têm o conhecimento necessário para gerir o novo negócio. “Dentro da rede Maternativa, elas desenvolvem com outras mães todas aquelas coisas que estão faltando”, explicou.
A rede nasceu em 2015, quando duas amigas começaram a enfrentar dificuldade, já durante a gestação, em relação ao mercado de trabalho. Elas, então, organizaram um grupo no Facebook para trocar experiências sobre o assunto. Em um mês, reuniram 600 mulheres. Hoje, são 24 mil. “Naquele momento, ficou muito claro que existe uma penalidade materna quando a gente olha para o mercado de trabalho, e que não era questão privada delas, mas uma questão pública e sistêmica”, explicou Vivian.
No grupo, as mulheres trocam informações sobre empreendedorismo materno e como é possível se manter ativa no mercado de trabalho conciliando maternidade e carreira. “Quando uma mulher se torna mãe, ela leva essa potência da maternidade para todas as áreas da vida dela, inclusive para o trabalho”, disse Vivian, que é mãe e ex-executiva de uma grande empresa.
No início deste ano, a Maternativa ganhou um prêmio do Facebook como uma das 100 comunidades com maior impacto social do mundo. “Apesar de não sermos um grupo muito grande – enquanto a médias de outros grupos é de 8% a 10% de engajamento, o nosso tem 80% de engajamento, então essa é a riqueza -, é uma troca, quem faz a Maternativa existir são as mulheres mães”, ressaltou Vivian.
Além de promover a troca de conhecimento e experiência entre as mães no ambiente virtual e presencial, com feiras e palestras, o modelo de negócio da Maternativa busca engajar a iniciativa privada no processo de transformação do mercado de trabalho para as mulheres e na redução da penalidade materna. As organizadoras da rede prestam consultoria, fazem palestra e desenvolvem conteúdo para marcas e empresas.
De acordo com Vivian, cada vez mais estão surgindo comitês de igualdade de gênero dentro das empresas, e o mercado começa a discutir a questão da penalidade materna, da barreira que as mães têm para crescer profissionalmente e ocupar cargos de liderança. A sócia da Maternativa destaca, entretanto, que, quando se torna mãe, a mulher fortalece várias habilidades.
“A mulher se torna altamente focada, ela vira detector de bobagem, tudo que não é importante ela tira da frente e foca no que é importante”, explicou. A capacidade de liderar e trabalhar em equipe, a autonomia, a proatividade e a empatia com as equipes são outras habilidades que as mães levam para o seu ambiente de trabalho.
Fonte: Jornal do Comércio


