Egresso da UFPA vai a Harvard pesquisar trabalho escravo na Amazônia durante a ditadura

A trajetória acadêmica construída na Universidade Federal do Pará abriu caminho para que o egresso do curso de Direito do Instituto de Ciências Jurídicas (ICJ/UFPA), Heitor Moreira Lurine Guimarães, conquistasse uma vaga no programa de doutorado em Estudos Africanos e Afro-Americanos da Universidade de Harvard, uma das instituições de ensino superior mais prestigiadas do mundo. A aprovação é mais um indicador da qualidade da formação oferecida pela universidade pública amazônica e da relevância das pesquisas produzidas na região.

Formado com Láurea Acadêmica, Heitor desenvolveu sua base como pesquisador ainda durante a graduação, por meio do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) e do Programa Institucional de Voluntários de Iniciação Científica (PIVIC). O engajamento na pesquisa resultou na conquista do Prêmio Horácio Schneider de Destaque da Iniciação Científica na área de Ciências Humanas, concedido pela UFPA às pesquisas de maior relevância desenvolvidas por estudantes no âmbito da graduação. “Essas oportunidades foram fundamentais não apenas para que eu desenvolvesse as habilidades básicas de pesquisador das humanidades, mas também para me inserir no universo dos seminários, congressos, publicações etc.”, afirma.

Em Harvard, a pesquisa de doutorado investigará o trabalho escravo em latifúndios vinculados a grandes empresas privadas no Pará durante o período da ditadura militar brasileira. O programa de doutorado em Estudos Africanos e Afro-Americanos é dedicado à investigação da diáspora africana em suas múltiplas dimensões históricas, políticas, sociais e culturais.

A investigação representa um marco significativo para a reconstrução da memória recente da Amazônia, marcada pelos projetos agropecuários, extrativistas e de mineração que utilizaram trabalho escravo, principalmente de pessoas negras residentes na região, como parte do desenvolvimento econômico financiado pelo Estado brasileiro. “A minha tese tentará reconstruir a história dessa escravidão contemporânea e como ela se relaciona com as questões de negritude, racismo e afrodescendência na Amazônia. Meu intuito é refletir como essa experiência repercute na construção de um projeto de reparações pela escravidão em todas as suas formas”, explica o pesquisador.

Para o egresso, a aprovação vai além da conquista individual. “Para mim representa sobretudo uma vitória para os que vieram antes de mim e que tornaram possível que eu chegasse tão alto. Minha avó materna, uma mulher preta retinta, começou a trabalhar como empregada doméstica aos 9 anos e só aprendeu a ler aos 40. Depois dela, minha mãe foi a primeira pessoa da família a ter nível superior, e agora eu sou o primeiro a alcançar a esfera internacional. É um longo processo de construção coletiva, que também acontece nas famílias de muitos jovens negros paraenses. Além disso, representa a potência da universidade pública enquanto centro de produção de conhecimento” relaciona.

TEXTO: Eva Sarmento – Assessoria de Comunicação Institucional da UFPA

FOTOS: Acervo Pessoal

Fonte: Universidade Federal do Pará.

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