A nota recente publicada no Radar Econômico, da Veja Negócios, assinada por Pedro Gil, sobre o avanço da compra da Medley pela EMS no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), parece tratar apenas de mais uma operação bilionária em andamento. Mas, olhando com mais atenção, a negociação mostra uma reorganização importante do mercado farmacêutico brasileiro.
A aquisição da Medley, divisão de genéricos da francesa Sanofi no Brasil, reforça uma tendência que vem ganhando força nos anos recentes: o avanço de grupos nacionais sobre segmentos antes dominados por multinacionais.
O mercado de genéricos deixou de ser apenas uma disputa de preços. Hoje, escala, distribuição e capilaridade passaram a ser ativos estratégicos. Quanto maior a presença nas farmácias, maior o poder competitivo. Nesse cenário, a EMS compra participação de mercado, reconhecimento do consumidor e fortalecimento logístico. Fatores que vão muito além da marca consolidada da empresa.
Ao mesmo tempo, a operação também evidencia uma mudança importante no posicionamento das farmacêuticas globais. A Sanofi, assim como outras multinacionais do setor, vem direcionando esforços para áreas consideradas mais rentáveis e sofisticadas, como biofármacos, inovação terapêutica e vacinas. Os genéricos continuam relevantes, mas operam com margens mais apertadas e exigem elevada eficiência operacional.
O resultado é um reposicionamento interessante: enquanto empresas globais elevam a aposta em inovação de alta complexidade, grupos nacionais ampliam musculatura em segmentos de grande volume e forte presença popular.
Esse tipo de transação também ajuda a explicar por que o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) deverá analisar a operação com atenção. A tendência de consolidação aumenta eficiência e escala, mas também amplia a concentração de mercado, especialmente em um setor tão sensível quanto o farmacêutico.
Assim, a possível aquisição da Medley pela EMS mostra como o mercado brasileiro começa a entrar em uma nova fase, marcada menos pela fragmentação e mais pela consolidação estratégica, um movimento que certamente vai além do segmento de medicamentos genéricos.
Cristina Monte é jornalista, colunista e analista de negócios, especializada na cobertura de indústria, inovação e desenvolvimento econômico na Amazônia.
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