LG abandona notebooks e reforça aposta em eletroeletrônicos

A decisão da LG Electronics de encerrar definitivamente a comercialização de notebooks no Brasil encerra um ciclo iniciado em 2024, quando a empresa suspendeu as vendas da linha LG Gram e informou que avaliava uma reformulação do negócio. Dois anos depois, veio a confirmação: a categoria deixa de fazer parte do portfólio da companhia no país, que passa a concentrar seus investimentos em segmentos considerados mais estratégicos, como televisores, monitores, ar-condicionado, eletrodomésticos e soluções corporativas.
Embora a notícia tenha repercutido principalmente entre consumidores, ela também desperta uma discussão importante para a indústria nacional, especialmente para o Polo Industrial de Manaus (PIM), onde a LG mantém uma de suas principais operações fabris no Brasil.
É importante esclarecer que a empresa não está deixando Manaus. O encerramento atinge apenas uma categoria de produtos. A fábrica continua produzindo outros equipamentos eletroeletrônicos que fazem parte da estratégia global da companhia. Ou seja, trata-se de uma reorganização do portfólio, e não de uma desmobilização industrial.

Essa diferença é relevante porque, frequentemente, decisões dessa natureza são interpretadas como perda de competitividade da planta industrial. Na prática, multinacionais revisam continuamente suas linhas de produtos, priorizando aquelas que apresentam maior escala, rentabilidade e participação de mercado, ou seja, maior margem de lucratividade.

O mercado brasileiro de notebooks continua expressivo. Segundo dados citados pela revista Exame com base na IDC, foram comercializados cerca de 1,15 milhão de notebooks apenas no primeiro trimestre de 2026, demonstrando que a demanda permanece consistente. Ainda assim, trata-se de um segmento marcado por forte concorrência, margens reduzidas e rápida evolução tecnológica, fatores que pressionam fabricantes que não conseguem alcançar escala suficiente.

Nos anos recentes, o mercado brasileiro passou a ser dominado por empresas com grande presença global e elevada capacidade de produção, como Lenovo, Dell, Samsung, Asus, Acer e Apple. Para uma fabricante posicionada em um nicho premium, como a linha LG Gram, competir exige investimentos constantes em inovação, marketing, canais de distribuição e preços competitivos.
Sob essa perspectiva, a decisão parece estar mais sintonizada à estratégia global da companhia de concentrar recursos em negócios onde já possui liderança consolidada.
A própria história recente da LG no Brasil ajuda a compreender esse movimento. Em 2021, após encerrar a produção mundial de smartphones, a empresa reorganizou sua operação industrial brasileira. Parte das atividades foi transferida para Manaus, reforçando a fabricação de produtos como monitores e notebooks. Agora, novamente, a empresa redefine seu portfólio, demonstrando que a flexibilidade se tornou uma característica permanente da indústria eletroeletrônica.

Em relação ao PIM, os reflexos imediatos ainda são difíceis de mensurar. Até o momento, não há informações oficiais sobre redução de empregos, encerramento de operações ou impactos sobre fornecedores locais. Também não foram divulgados dados referentes ao volume de notebooks efetivamente produzido pela LG na capital amazonense antes da suspensão das vendas.
Mesmo assim, o episódio traz algumas reflexões importantes.

A primeira delas diz respeito à necessidade permanente de diversificação do PIM. Em um ambiente industrial cada vez mais dinâmico, depender de poucos produtos ou de poucas categorias aumenta a exposição às decisões estratégicas das matrizes internacionais.

A segunda está relacionada à competitividade. O PIM continua oferecendo vantagens relevantes, especialmente por meio do modelo da Zona Franca. Entretanto, incentivos fiscais, sozinhos, já não garantem a permanência de uma linha de produção. Escala de mercado, logística, inovação, produtividade e posicionamento global passaram a pesar tanto quanto os benefícios tributários.

Também chama atenção o fato de que o movimento da LG ocorre justamente em um momento em que outras empresas ampliam investimentos em Manaus, especialmente nos segmentos de televisores, motocicletas, componentes eletrônicos, conectividade e mobilidade elétrica. Isso demonstra que o desafio atual do polo não é apenas atrair empresas, mas acompanhar a rápida transformação tecnológica das cadeias produtivas e adaptar continuamente seu parque industrial.
Em outras palavras, a saída da LG do segmento de notebooks não representa um enfraquecimento da indústria amazonense. Representa, sobretudo, uma mudança de estratégia empresarial em um mercado extremamente competitivo. O episódio reforça que, na indústria global, linhas de produtos nascem, amadurecem e podem ser descontinuadas sem que isso signifique o encerramento de uma operação fabril inteira.
Para Manaus, a principal lição talvez seja outra: preservar a competitividade do PIM exige mais do que incentivos. Exige capacidade de atrair novos investimentos, incorporar tecnologias emergentes e ampliar continuamente o portfólio industrial. É justamente essa capacidade de adaptação que determinará quais empresas permanecerão produzindo na Amazônia nos próximos anos.
Cristina Monte é jornalista, colunista e analista de negócios, especializada na cobertura de indústria, inovação e desenvolvimento econômico na Amazônia.

FOTO/DIVULGAÇÃO – LG

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