A indústria de duas rodas do Polo Industrial de Manaus (PIM) pode estar prestes a entrar em uma nova fase. A empresa chinesa Yema, especializada em motocicletas e bicicletas elétricas, apresentou à Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) um plano para instalar uma fábrica própria na região. O projeto ainda está em avaliação, mas já sinaliza um movimento que acompanha tendências globais: a expansão da mobilidade elétrica e a crescente presença de fabricantes chineses em novos mercados.
Antes de avançar para uma planta industrial completa, a empresa já iniciou uma operação local. Desde outubro de 2025, a Yema mantém em Manaus uma estrutura voltada à montagem e manutenção de veículos elétricos importados da China. A operação ainda é enxuta, com poucos funcionários e um turno de trabalho, mas já demonstra capacidade de montagem entre 40 e 50 motos elétricas por dia.
Esse modelo segue uma estratégia comum entre fabricantes estrangeiros que buscam entrar no mercado brasileiro: iniciar com importação e montagem local para testar o mercado e estruturar canais de distribuição, antes de avançar para investimentos industriais de maior escala.
Fundada na China, a Yema atua no desenvolvimento e comercialização de veículos elétricos leves, incluindo scooters, motos e bicicletas elétricas voltadas principalmente para deslocamentos urbanos de curta distância. Os modelos são projetados para trajetos cotidianos, com baixo custo operacional e menor impacto ambiental em comparação com motocicletas a combustão.
O Brasil aparece como um mercado estratégico para esse tipo de veículo. O país possui uma das maiores frotas de motocicletas do mundo. Segundo dados da indústria, o mercado brasileiro vende mais de 1,5 milhão de motos por ano, impulsionado principalmente pela mobilidade urbana e pelo crescimento dos serviços de entrega.
Apesar disso, o segmento de motos elétricas ainda representa uma parcela pequena desse mercado. Estimativas do setor indicam que veículos elétricos correspondem a pouco mais de 0,5% das vendas de duas rodas no país. Esse número mostra que o mercado ainda é incipiente, por outro lado, também revela um amplo espaço para crescimento.
É nesse contexto que Manaus ganha relevância. O Polo Industrial da capital amazonense concentra praticamente toda a produção de motocicletas do Brasil e abriga grandes fabricantes globais, além de uma cadeia consolidada de fornecedores e serviços industriais. Para empresas estrangeiras, produzir na região significa acesso a incentivos fiscais da Zona Franca, proximidade com a cadeia produtiva de duas rodas e possibilidade de fabricar localmente para atender ao mercado brasileiro.
Esse ambiente industrial explica por que novas empresas continuam avaliando investimentos na região, mesmo décadas após a criação do modelo Zona Franca.
A chegada da Yema também faz parte de um movimento mais amplo da indústria global. Nos anos recentes, fabricantes chineses têm ampliado presença internacional, especialmente no segmento de veículos elétricos. O Brasil hoje lidera cadeias tecnológicas relacionadas à mobilidade elétrica, incluindo produção de baterias, motores elétricos e sistemas eletrônicos embarcados.
No caso das motocicletas, essa tendência se torna ainda mais evidente. Scooters e motos elétricas ganharam espaço em diversos países impulsionadas por políticas ambientais, aumento do custo dos combustíveis e mudanças no perfil da mobilidade urbana.
Caso a implantação da fábrica da Yema avance, o projeto também pode representar um passo importante na diversificação tecnológica do PIM. Tradicionalmente voltada à produção de motocicletas com motor a combustão, a indústria local começa a observar o avanço gradual da eletrificação no setor.
Diferentemente das motos convencionais, veículos elétricos possuem menos componentes mecânicos e dependem mais de sistemas eletrônicos, baterias e softwares de controle. Essa mudança pode alterar parte da cadeia produtiva no médio prazo, aproximando a indústria de duas rodas da forte base eletroeletrônica já existente no polo industrial.
Os números ajudam a entender o momento atual do setor. O mercado de motos elétricas no Brasil ainda é pequeno, mas cresce rapidamente. Muitas empresas estrangeiras, especialmente chinesas, estão adotando uma estratégia gradual de entrada: primeiro operações de montagem e distribuição, para depois avaliar a instalação de fábricas completas.
Nesse processo, Manaus tem se consolidado como porta de entrada industrial para fabricantes globais de duas rodas. A combinação entre incentivos fiscais, infraestrutura industrial e experiência acumulada na produção de motocicletas faz da região um ambiente natural para novos investimentos.
Se a aposta na mobilidade elétrica se confirmar nos próximos anos, o PIM poderá viver uma nova etapa de transformação. Assim como aconteceu no passado com a produção de motocicletas convencionais, a cidade pode assumir protagonismo nesse segmento, desta vez na transição para uma nova geração de veículos.
A chegada de empresas como a Yema sugere que essa mudança pode já ter começado.
Cristina Monte é jornalista, colunista e analista de negócios, especializada na cobertura de indústria, inovação e desenvolvimento econômico na Amazônia.


