O Paraguai está transformando sua abundância de energia hidrelétrica em uma estratégia para participar da nova economia da inteligência artificial. Com projetos de infraestrutura digital, cooperação internacional e formação tecnológica, o país pretende deixar de ser apenas usuário de soluções desenvolvidas no exterior e conquistar espaço como produtor de serviços e aplicações de IA.
A principal iniciativa é o Yguazú Digital, que prevê a implantação de um centro binacional de inteligência artificial e computação avançada. O projeto deriva do acordo firmado em maio de 2026 entre Paraguai e Taiwan para a criação de um Centro de Computação de Inteligência Artificial Soberana.
A proposta é oferecer ao Paraguai capacidade própria para processar dados, desenvolver aplicações e executar modelos de inteligência artificial. O conceito de IA soberana está relacionado ao controle nacional sobre infraestrutura computacional, informações e tecnologias consideradas estratégicas, reduzindo a dependência de plataformas estrangeiras.
Em setembro, representantes dos dois países voltaram a discutir o avanço do Yguazú Digital durante a agenda do governo paraguaio em Nova York. A parceria com Taiwan também contempla intercâmbio de conhecimento e fortalecimento das capacidades tecnológicas do país.
O projeto integra uma estratégia mais ampla para posicionar o Paraguai como polo tecnológico do Cone Sul. Entre os atrativos apresentados pelo país estão a disponibilidade de eletricidade renovável, a localização no centro da América do Sul e o potencial para receber centros de dados, empresas de tecnologia e operações que exigem grande capacidade de processamento.
A energia tornou-se um dos ativos mais disputados da economia digital. Centros de dados utilizados para desenvolver e operar sistemas de inteligência artificial precisam alimentar milhares de servidores, além dos equipamentos de refrigeração e segurança. Por isso, países com oferta abundante de eletricidade passaram a disputar investimentos antes concentrados nos grandes mercados tecnológicos.
Durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, em setembro, o presidente Santiago Peña apresentou a inteligência artificial como uma oportunidade para acelerar o desenvolvimento do Paraguai. Segundo o governo, o país reúne energia, território, recursos e capital humano para participar dessa transformação.
Além do Yguazú Digital, o Paraguai desenvolve um centro de dados estatal com certificação Tier III e investimento anunciado de US$ 34 milhões. A estrutura deverá ampliar a capacidade de armazenamento e processamento dos sistemas públicos.
Esses projetos estão ligados ao Plano Nacional de Tecnologias da Informação e Comunicação 2022–2030, que estabelece metas para conectividade, digitalização do Estado, formação profissional e desenvolvimento de produtos e serviços tecnológicos. A Agenda Digital paraguaia conta com financiamento de US$ 130 milhões do Banco Interamericano de Desenvolvimento. Segundo o governo, 96% desses recursos estavam comprometidos em julho de 2026.
O possível reflexo para o Brasil
O fortalecimento tecnológico do Paraguai também levanta uma questão estratégica para o Brasil: a destinação da energia produzida por Itaipu.
O Tratado de Itaipu determina que a energia da hidrelétrica seja dividida igualmente entre os dois países. Cada um tem direito a 50% da produção e pode adquirir a parcela que não for utilizada pelo outro para consumo próprio. Como o Paraguai historicamente não consome toda a energia à qual tem direito, o Brasil absorve grande parte desse excedente.
À medida que a demanda paraguaia aumenta, porém, tende a sobrar menos energia de sua parcela para o mercado brasileiro. Isso não significa que o Brasil esteja perdendo sua metade da produção de Itaipu, mas que poderá dispor de um volume menor da energia não utilizada pelo país vizinho.
Os números mostram que o consumo paraguaio está crescendo rapidamente. Em 2025, a demanda elétrica do país aumentou 12,5% e chegou a 29.419 gigawatts-hora. Itaipu respondeu por 87,6% desse abastecimento.
Nos primeiros cinco meses de 2026, o consumo avançou mais 19,4% em relação ao mesmo período de 2025, passando de 12.217,6 para 14.587,1 gigawatts-hora. Entre janeiro e agosto, Itaipu forneceu 19.276 gigawatts-hora ao sistema elétrico paraguaio.
A instalação de centros de dados e estruturas de inteligência artificial poderá adicionar uma nova fonte de demanda, porque essas operações consomem energia continuamente. Ainda não existem, entretanto, informações suficientes para calcular quanto os projetos anunciados exigirão nem em que proporção poderão reduzir o excedente adquirido pelo Brasil.
Também não é correto afirmar que a energia destinada ao mercado brasileiro diminui obrigatoriamente todos os anos. O volume disponível depende do consumo paraguaio, da demanda brasileira, da produção de Itaipu e das condições hidrológicas. O que os dados permitem apontar é uma tendência: se o Paraguai continuar ampliando o uso de sua parcela, haverá menos excedente disponível para aquisição pelo Brasil.
O desafio paraguaio será transformar a vantagem energética em uma cadeia econômica mais ampla, com infraestrutura, empresas, profissionais qualificados, pesquisa e serviços exportáveis. Para o Brasil, o avanço do país vizinho reforça a necessidade de acompanhar a mudança no uso da energia de Itaipu e planejar um cenário no qual o excedente paraguaio poderá ser progressivamente menor.
Cristina Monte é jornalista, colunista e analista de negócios, com atuação na cobertura de indústria, inovação e desenvolvimento econômico na Amazônia.
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