Produção de TVs cresce em Manaus enquanto a televisão se reinventa nas casas brasileiras

A aproximação de uma Copa do Mundo costuma produzir um efeito curioso no mercado brasileiro: o aumento na venda de televisores. O fenômeno se repete há décadas e voltou a aparecer no início de 2026, quando dados do setor indicaram crescimento na produção de TVs no Polo Industrial de Manaus (PIM).
Em janeiro, foram fabricadas cerca de 1,17 milhão de unidades, volume aproximadamente 11% superior ao registrado no mesmo período do ano anterior. A explicação mais imediata é conhecida do varejo: eventos esportivos de grande audiência costumam estimular a troca de aparelhos nas casas dos consumidores.

Mas olhar apenas para o efeito Copa talvez seja simplificar demais a história. Durante muitos anos, analistas chegaram a prever que a televisão perderia espaço diante do avanço dos smartphones e tablets. O que ocorreu foi justamente o contrário. A TV não desapareceu. Ela se transformou.

Hoje, a maior parte dos aparelhos produzidos em Manaus são smart TVs, conectadas à internet e integradas a plataformas de streaming, jogos e aplicativos. O televisor deixou de ser apenas um receptor de canais e passou a funcionar como uma espécie de centro doméstico de entretenimento digital.

Essa mudança ajuda a explicar por que o produto continua relevante no varejo.
Mesmo em um cenário dominado por múltiplas telas, a televisão permanece sendo a principal interface de consumo coletivo dentro da casa. É na TV que as famílias assistem a filmes, séries, esportes e transmissões ao vivo. E é justamente esse caráter compartilhado que eventos como a Copa do Mundo continuam explorando.
Para a indústria instalada em Manaus, essa dinâmica tem impacto direto. O segmento de televisores é um dos mais tradicionais do Polo Industrial e reúne operações de grandes fabricantes globais responsáveis por abastecer o mercado brasileiro. Estima-se que a maior parte das TVs vendidas no país seja produzida nas linhas industriais da capital amazonense, consolidando o polo como um dos principais centros de produção eletrônica da América Latina.
Quando a demanda cresce no varejo, a resposta aparece rapidamente na indústria. Aumento de produção, ampliação de turnos e maior movimentação logística fazem parte desse ciclo.

O crescimento recente vai além de um evento pontual e reforça a capacidade de adaptação da indústria eletrônica instalada na Zona Franca de Manaus. Nos últimos anos, o setor incorporou novas tecnologias, telas de alta resolução e sistemas baseados em software, acompanhando a evolução do mercado global de eletrônicos.
A televisão é, portanto, um exemplo interessante de como produtos tradicionais conseguem se reinventar diante das mudanças tecnológicas. A TV de hoje é menos um aparelho isolado e mais uma plataforma conectada a um ecossistema digital que inclui streaming, jogos, serviços online e integração com outros dispositivos da casa.
Para Manaus, onde boa parte dessa produção se concentra, isso significa que um equipamento que muitos consideravam ultrapassado continua sendo um dos motores da atividade industrial local.

Cristina Monte é jornalista, colunista e analista de negócios, especializada na cobertura de indústria, inovação e desenvolvimento econômico na Amazônia.

Crédito Imagem – Freepik

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