Selic ainda elevada: os impactos sobre o Polo Industrial de Manaus e os caminhos para preservar empregos

A redução de 0,25 ponto percentual levou a taxa Selic de 14% para 13,75% ao ano. Apesar do movimento de queda, o custo do dinheiro permanece elevado para consumidores e empresas. Para o Polo Industrial de Manaus, essa realidade merece atenção especial, pois grande parte de sua produção está ligada a bens duráveis, como motocicletas, televisores, aparelhos de ar-condicionado, eletrodomésticos e equipamentos eletrônicos. São produtos cujas vendas dependem, em muitos casos, da disponibilidade de crédito e das condições oferecidas para parcelamento.

Quando os juros estão altos, empréstimos, financiamentos e compras parceladas ficam mais caros. Diante de prestações maiores e de um orçamento familiar pressionado, o consumidor tende a adiar a compra ou a substituição de bens que não considera urgentes. Essa retração chega primeiro ao comércio, com menor volume de vendas, e depois às fábricas, por meio da redução de pedidos e do aumento dos estoques. Dessa maneira, uma decisão tomada para controlar a inflação pode provocar efeitos sobre a produção industrial, o faturamento e os investimentos.

As empresas também sentem diretamente o peso da Selic elevada. O crédito utilizado para financiar capital de giro, adquirir insumos, manter estoques, modernizar máquinas ou ampliar a capacidade produtiva torna-se mais caro. Em Manaus, esse impacto pode ser ainda maior devido à distância dos principais mercados consumidores, aos custos logísticos e ao tempo necessário para transportar componentes e produtos acabados. Quanto mais longo for o intervalo entre a compra da matéria-prima e o recebimento das vendas, maior será a necessidade de recursos para sustentar a operação.

O Polo Industrial de Manaus registrou faturamento de R$ 121,76 bilhões no primeiro semestre de 2026 e manteve média mensal de 130.903 empregos diretos. Além disso, reúne mais de 550 indústrias e movimenta uma ampla rede de fornecedores, transportadoras e prestadores de serviços. Portanto, uma redução prolongada na produção não afetaria apenas as fábricas: poderia alcançar o comércio, os serviços, a arrecadação pública e a renda das famílias amazonenses. É preciso observar, ainda, que o crescimento nominal do faturamento nem sempre representa aumento do volume produzido ou melhora das margens empresariais.

Para se proteger, cada empresa precisa trabalhar com diferentes cenários de demanda e integrar as decisões das áreas financeira, comercial, produtiva, logística e de compras. O planejamento deve acompanhar indicadores como fluxo de caixa, margem por produto, ponto de equilíbrio, prazo de recebimento, custo financeiro, giro dos estoques e nível de endividamento. Também será importante renegociar prazos com fornecedores, reduzir desperdícios, evitar dívidas caras de curto prazo e buscar fontes de financiamento com custos e prazos compatíveis com a capacidade de pagamento da organização.

Outra saída é aumentar a produtividade sem transformar a demissão em primeira alternativa. Práticas de melhoria contínua e Lean Manufacturing, manutenção preventiva, qualificação dos trabalhadores, revisão dos processos e melhor aproveitamento das matérias-primas podem reduzir custos sem comprometer a qualidade. A diversificação de fornecedores e mercados, a ampliação das exportações, o investimento em inovação e o desenvolvimento de produtos com maior valor agregado também diminuem a dependência de um único segmento consumidor e fortalecem a competitividade das empresas do Polo.

Preservar os empregos deve fazer parte da estratégia empresarial. Antes de promover desligamentos, as organizações podem revisar despesas não essenciais, reduzir horas extras, remanejar profissionais, ajustar temporariamente os turnos, programar férias e negociar alternativas dentro da legislação e dos acordos coletivos. A Selic em 13,75% ainda representa um obstáculo relevante, mas seus efeitos podem ser administrados com planejamento, eficiência e decisões antecipadas. Proteger o caixa, controlar os estoques e valorizar a mão de obra são medidas fundamentais para atravessar o período de crédito caro e manter o Polo Industrial de Manaus como principal motor econômico do Amazonas.

Alon Hans é engenheiro de Telecomunicações, consultor e educador financeiro, palestrante, professor, articulista e escritor. Atua há mais de 15 anos com consultoria para pessoas e empresas, com foco em educação financeira, empreendedorismo, negócios e investimentos.
Possui quase 26 anos de experiência em indústrias nacionais e multinacionais, com atuação nas áreas de Produção, Engenharia, Projetos e Gestão Operacional.
Contato – @alonhansfinanceiro

Compartilhar

Últimas Notícias