Seleção genética de espécies nativas cria áreas mais resilientes na Mata Atlântica e reposiciona a restauração florestal como estratégia climática de alta precisão
Na Mata Atlântica — um dos biomas mais pressionados e fragmentados do planeta — uma revolução silenciosa está acontecendo. Não vem de drones nem de satélites. Vem do DNA das árvores.
No Sul da Bahia, uma iniciativa baseada em seleção genética de espécies nativas começa a redesenhar o futuro da restauração florestal no Brasil. A proposta vai além do plantio tradicional: trata-se de engenharia ecológica de precisão, capaz de formar florestas mais produtivas, mais adaptáveis e, sobretudo, mais resilientes às mudanças climáticas.
A estratégia, desenvolvida pela Symbiosis, combina genética florestal avançada com silvicultura de alto desempenho — um casamento entre ciência e natureza que pode redefinir como o mundo pensa a recomposição de biomas tropicais.
E aqui está o ponto que chama a atenção: não se trata apenas de plantar árvores. Trata-se de plantar árvores melhores preparadas para o futuro climático que já chegou.
O valor escondido nas árvores sobreviventes
O trabalho começa onde poucos olham: nas árvores que resistiram.
Segundo Mickael Mello, gerente do viveiro de mudas da Symbiosis, o bioma carrega verdadeiros arquivos vivos de adaptação climática.
“Estamos falando de um bioma altamente fragmentado, o que torna cada árvore remanescente ainda mais valiosa. Muitas dessas matrizes são centenárias, sobreviveram ao processo histórico de exploração da Mata Atlântica e carregam uma genética extremamente adaptada”, explica.
Em outras palavras: a floresta já fez parte do trabalho evolutivo — e agora a ciência está aprendendo a ler esse código.
A equipe realiza um mapeamento minucioso de árvores no Sul da Bahia, Espírito Santo e norte do Rio de Janeiro. A partir daí, identifica as chamadas matrizes superiores — indivíduos que se destacam por porte, diâmetro, altura e sanidade.
“Para classificar uma árvore como matriz superior, a gente observa principalmente o porte, o diâmetro, a altura e sua sanidade. São árvores que se destacam em relação às outras da mesma espécie no mesmo ambiente”, detalha Mickael.
É uma espécie de curadoria genética da floresta.
Crescimento até 50% maior muda o jogo climático
Os números começam a mostrar por que o tema merece atenção global.
De acordo com dados da Symbiosis:
- Plantios clonais apresentam ganhos de crescimento de até 50%
- A área produtiva já alcança cerca de 1.000 hectares
- A meta é dobrar até o fim de 2026
Mas o impacto vai além da produtividade.
Árvores que crescem mais rápido e com melhor desempenho capturam carbono mais cedo e de forma mais eficiente. Em um mundo pressionado por metas de descarbonização, isso muda a equação da restauração.
Aqui surge um ângulo que o Neo Mondo gosta de provocar:
E se o futuro da natureza regenerada depender tanto de genética quanto de conservação?
Diversidade genética: o antídoto contra florestas frágeis
Um dos riscos clássicos da silvicultura intensiva é a homogeneização — florestas plantadas que parecem naturais, mas são geneticamente pobres.
A Symbiosis tenta ir na direção oposta.
Os plantios utilizam:
- múltiplas matrizes
- diferentes espécies
- variabilidade genética planejada
O objetivo é aproximar a dinâmica dos plantios à complexidade das florestas naturais — algo que a ciência já associa a maior resiliência climática.
“O planejamento da coleta e do estoque de sementes precisa ser extremamente preciso para garantir um suprimento contínuo. Como trabalhamos com silvicultura em larga escala, é fundamental sermos assertivos tanto nas coletas quanto nos plantios”, afirma Mickael.
Na prática, trata-se de escala com inteligência ecológica.
O que está em jogo (e por que o mundo deveria prestar atenção)
O caso do Sul da Bahia dialoga com três megatendências globais:
1. Restauração baseada em ciência
O mundo caminha para abandonar o “plantar por plantar”. A década da restauração exige eficiência ecológica mensurável.
2. Natureza como infraestrutura climática
Florestas deixam de ser apenas conservação e passam a ser ativos estratégicos de carbono e adaptação.
3. Bioeconomia de alta performance
A fronteira entre conservação e produtividade começa a se dissolver.
Se bem conduzido, esse modelo pode:
- acelerar metas de carbono
- reduzir riscos climáticos
- gerar madeira de origem nativa
- valorizar a Mata Atlântica
- atrair capital climático
Mas — e aqui entra a reflexão necessária — também levanta perguntas importantes.
O debate que precisa acontecer
O avanço da genética florestal abre uma discussão sofisticada que o setor ainda está começando a enfrentar:
- Até onde vai a intervenção humana na restauração?
- Como garantir que produtividade não comprometa complexidade ecológica?
- Quem certifica a qualidade genética dessas florestas?
- O mercado de carbono está preparado para essa nova geração de ativos naturais?
A boa notícia é que iniciativas como a do Sul da Bahia mostram que o Brasil pode estar na fronteira da restauração climática inteligente.
A má notícia? O tempo climático não está esperando.
Se antes o desafio era reflorestar, agora o desafio é reflorestar melhor.
A história que emerge da Mata Atlântica sugere algo maior: a próxima fase da agenda climática não será apenas sobre proteger a natureza — será sobre entender profundamente o código da vida para regenerá-la com inteligência.
E talvez essa seja a virada mais silenciosa — e mais poderosa — da restauração no século XXI.
Fonte: Neomondo/Estadão.
Foto: Divulgação/Symbiosis


