Defender a Zona Franca também significa cobrar transparência e resultados

A Zona Franca de Manaus sempre foi analisada, defendida e questionada sob a ótica dos incentivos fiscais. Mas, cada vez mais, o futuro do modelo passa por outro eixo tão importante quanto a produção industrial: a capacidade de transformar investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação em resultados concretos para a Amazônia.
Por isso, a Operação Cruciatus, conduzida pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União (CGU), precisa ser analisada para além do impacto imediato da investigação. O ponto central não é colocar em dúvida a importância dos recursos destinados à inovação, isso é fato! Mas justamente proteger esse instrumento, considerado estratégico para a evolução tecnológica do Polo Industrial de Manaus (PIM).

Os recursos de PD&I têm um papel fundamental para aproximar indústria, institutos de pesquisa, startups, universidades e empreendedores. Quando bem aplicados, são capazes de gerar conhecimento, desenvolver soluções, formar profissionais e criar negócios dentro da própria região, elevando pessoas e negócios.
E é exatamente por isso que eventuais desvios de finalidade e/ou conflitos de interesses precisam ser apurados com rigor. Afinal, falamos tanto de transparência, ética e, não podemos tentar melhorar esse modelo?
A Amazônia possui um ecossistema sério, formado por pesquisadores, instituições, empresas de base tecnológica e empreendedores que trabalham diariamente para transformar conhecimento em desenvolvimento. Esses atores precisam ser os principais beneficiados por uma política criada justamente para fortalecer a inovação regional.

Após a operação, a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) informou, por meio da sua assessoria de imprensa, que identificou ainda em 2022 inconsistências relacionadas à aplicação de recursos de PD&I por meio de Fundos de Investimento em Participações (FIPs), comunicou os órgãos competentes e adotou medidas para aperfeiçoar os mecanismos de acompanhamento.
A Autarquia também destacou a publicação da Portaria Conjunta MDIC/Suframa nº 1, de 19 de fevereiro de 2025, que estabeleceu novos critérios para validação dos investimentos realizados por meio desses fundos, buscando ampliar os mecanismos de controle sobre a efetiva aplicação dos recursos.

Diante da relevância do tema, solicitei esclarecimentos adicionais à Suframa sobre os mecanismos atuais de acompanhamento dos investimentos, os avanços implementados após as mudanças regulatórias e os impactos esperados para o ecossistema de inovação da Amazônia. Entretanto, a Autarquia manteve como posicionamento oficial (institucional) a nota encaminhada pela assessoria de imprensa e o conteúdo da nova regulamentação.

O espaço para manifestação das instituições envolvidas é parte essencial do processo jornalístico. Além de garantir equilíbrio à cobertura, permite que órgãos públicos, empresas e demais atores apresentem informações, esclareçam decisões e contribuam para um debate mais qualificado sobre temas de interesse da sociedade. Afinal, se o objetivo comum é fortalecer o desenvolvimento da Amazônia, cada instituição precisa assumir seu papel nessa construção, inclusive abrindo espaço para o diálogo, esclarecimentos e aprimoramentos necessários.
Questionar não significa enfraquecer o modelo. Pelo contrário. Um sistema estratégico precisa estar preparado para evoluir, corrigir rotas e ampliar sua transparência.
A Zona Franca de Manaus (ZFM) enfrenta há décadas debates complexos e, muitas vezes, uma compreensão limitada sobre sua importância econômica, social e ambiental para o país. Justamente por isso, proteger sua credibilidade também passa por enfrentar internamente os desafios existentes.

Cabe à imprensa, especialmente quando exerce seu papel de forma independente e comprometida com o interesse público, acompanhar, perguntar e provocar debates necessários, mesmo quando os temas são sensíveis. É nosso compromisso e propóstiso! Não para alimentar narrativas contra a Amazônia ou contra a indústria, mas porque políticas públicas relevantes precisam ser constantemente discutidas, avaliadas e aprimoradas, como tudo na vida. Fechar os olhos para fragilidades não protege o modelo. O que protege é garantir que seus instrumentos mais importantes estejam cada vez mais fortes.
A inovação financiada pela Zona Franca precisa chegar onde faz diferença: aos laboratórios, às startups, às empresas de base tecnológica, aos pesquisadores e aos empreendedores que, diariamente, estão construindo o futuro da Amazônia e contribuindo para o seu desenvolvimento e protagonismo nos negócios.
Porque fortalecer a Zona Franca de Manaus também passa por garantir que seus instrumentos de inovação cumpram sua principal missão: transformar recursos em conhecimento, tecnologia, novos negócios e desenvolvimento real dentro da própria Amazônia.

Cristina Monte é jornalista, colunista e analista de negócios, especializada na cobertura de indústria, inovação e desenvolvimento econômico na Amazônia.

FOTO/DIVULGAÇÃO – IA

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