A consolidação da Jovi no Brasil em 2026 desenha um cenário de contrastes no setor de tecnologia. De um lado, a fabricante celebrou neste mês o aporte de R$ 200 milhões em sua linha de montagem em Manaus, valor que permitiu quintuplicar a capacidade para 500 mil smartphones/ano. Do outro, o desafio de enfrentar um mercado saturado e dominado por gigantes que detêm, juntas, cerca de 70% do market share nacional.
Embora os 1mil novos empregos diretos gerados na planta operada pela GBR Componentes tragam um fôlego inegável ao Polo Industrial de Manaus (PIM), o movimento da Jovi ocorre sob a sombra de um ambiente tributário complexo e de uma logística amazônica que ainda encarece o produto final. A crítica de analistas recai sobre a sustentabilidade desse crescimento: será o volume de 500 mil unidades suficiente para peitar a escala logística de concorrentes veteranas que já operam na casa dos milhões?
Apesar do ceticismo, o impacto para o PIM é amplamente positivo e estratégico, e é isso que estamos focando. Em relação à retenção de tecnologia, fica claro que a vinda da Jovi não é apenas montagem; além disso, envolve a transferência de protocolos de qualidade da Vivo Mobile (China), e eleva a régua técnica da mão de obra local, gerando, inclusive, mais postos de trabalho, o que contribui para elevar a economia local. Outro ponto positivo é em relação ao fortalecimento do ecossistema, já que o investimento de R$ 200 milhões injeta liquidez na cadeia de fornecedores secundários de componentes e embalagens na região Norte. E, não menos importante, trata-se de um sinal de estabilidade/credibilidade, pois, em meio às incertezas globais, a expansão de uma marca estrangeira reafirma a Zona Franca como o porto seguro para o setor de eletroeletrônicos.
A aposta da Jovi no modelo V70 5G e na ‘tropicalização’ de baterias maiores é um reconhecimento de que o consumidor brasileiro é exigente, mas sensível a preço. Se o investimento se traduzirá em lucro real frente à pressão da concorrência, ainda é cedo para dizer. No entanto, para Manaus, a notícia é de vitória: a cidade prova, mais uma vez, que o futuro da tecnologia no Brasil ainda passa obrigatoriamente pela floresta.
Cristina Monte é jornalista, colunista e analista de negócios, especializada na cobertura de indústria, inovação e desenvolvimento econômico na Amazônia.
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