Foxconn e Mitsubishi Fuso unem forças com aval do Cade e reforçam perspectivas para o PIM

O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou, sem restrições, a criação de uma joint venture entre a Foxconn e a Mitsubishi Fuso voltada ao desenvolvimento de ônibus sustentáveis e de emissão zero. No papel, trata-se de uma decisão de rotina do órgão antitruste. Mas, na prática, ela ajuda a explicar para onde a indústria automotiva está caminhando.
Olhando de longe, parece apenas mais uma fabricante de ônibus elétricos entrando no mercado. Contudo, essa leitura fica curta diante do que a operação realmente representa.

A indústria automotiva foi construída, durante décadas, sobre a base da engenharia mecânica: motores, chassis e linhas de montagem. Esse alicerce não desapareceu, mas deixou de ser suficiente diante das novas demandas do mercado. Cada vez mais, quem fabrica veículos precisa dominar também eletrônica embarcada, semicondutores, inteligência artificial, conectividade e software, territórios que, até pouco tempo atrás, pertenciam a outro tipo de empresa.

É aí que a Foxconn entra na história. Conhecida por fabricar produtos para gigantes como a Apple, a empresa vem deslocando seu centro de gravidade para a mobilidade elétrica, e não mais apenas como fornecedora de componentes. Hoje, desenvolve plataformas completas para veículos elétricos, integração digital e sistemas inteligentes de transporte.

Do outro lado está a Mitsubishi Fuso, com mais de 90 anos dedicados ao desenvolvimento e à fabricação de veículos comerciais. Um patrimônio de engenharia veicular, segurança e conhecimento produtivo que não se constrói da noite para o dia.

Separadamente, as duas empresas dominam competências distintas. Juntas, formam uma combinação difícil de reproduzir: de um lado, eletrônica, automação e cadeias globais de suprimentos; do outro, engenharia veicular e experiência operacional. É justamente esse encontro, entre quem domina a eletrônica em escala e quem domina a fabricação de veículos comerciais, que ajuda a redesenhar o setor. A nova indústria automotiva já não nasce apenas dentro das montadoras tradicionais. Ela surge da convergência entre competências que, até pouco tempo, caminhavam em universos distintos.

Chama atenção também o critério adotado pelo Cade para analisar a operação. O Tribunal decidiu avaliar os grupos econômicos das duas empresas como um todo, e não apenas a companhia diretamente envolvida na aquisição. Trata-se de um entendimento que reforça parâmetros mais objetivos para operações internacionais e amplia a previsibilidade desse tipo de negócio. Ao mesmo tempo, o órgão reconheceu que a nova empresa poderá atuar no Brasil nos próximos anos, o que justificou analisar seus possíveis efeitos concorrenciais no país, mesmo sem uma operação local já constituída.

O detalhe é relevante porque evidencia uma mudança de fundo: em uma economia globalizada, ativos como tecnologia, propriedade intelectual, plataformas digitais e capacidade de inovação passaram a ter peso equivalente, ou, em muitos casos, superior, ao de uma fábrica física.

O que isso significa para Manaus?

Para o Brasil e, em especial, para o Polo Industrial de Manaus (PIM), vale acompanhar atentamente essa aprovação. A Foxconn já mantém operações na região e, embora a joint venture anunciada não preveja, neste momento, investimentos em Manaus, essa aprovação reforça uma tendência que vem se consolidando globalmente: empresas de tecnologia estão deixando de ser apenas fornecedoras de componentes para ocupar posições centrais na indústria automotiva. Essa análise ganha ainda mais relevância diante do acompanhamento da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), que realizou três visitas à unidade da Foxconn (Manaus/Jundiaí) somente neste ano, reforçando o diálogo institucional e o interesse em acompanhar a evolução de seus investimentos e estratégias industriais.
Embora, até o momento, não exista qualquer anúncio sobre a instalação de uma unidade da parceria no PIM, a reorganização das cadeias globais de produção pode favorecer regiões que já concentram competências em eletrônica embarcada, sensores, módulos de conectividade, sistemas inteligentes e componentes eletrônicos, exatamente algumas das capacidades que tornam o polo de Manaus competitivo nesse novo cenário industrial.
A decisão do Cade aponta que a indústria do futuro será cada vez mais guiada pela convergência entre tecnologia, eletrônica, software e manufatura avançada.

 

Cristina Monte é jornalista, colunista e analista de negócios, especializada na cobertura de indústria, inovação e desenvolvimento econômico na Amazônia.

FOTO/DIVULGAÇÃO – IA

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