Honda acelera motos enquanto desacelera elétricos

Na semana passada, a Honda anunciou que iria congelar o projeto bilionário de veículos elétricos no Canadá e, poucos dias depois, confirmou uma nova fábrica de motocicletas na Turquia. Essa sequência de decisões ajuda a confirmar uma mudança importante na estratégia global da companhia.

O que está acontecendo é uma recalibragem das prioridades industriais em um momento de maior cautela no mercado automotivo global.

No Canadá, o cenário é de desaceleração na demanda por veículos elétricos, custos elevados da cadeia de baterias e maior incerteza sobre a velocidade real da transição energética. O próprio mercado norte-americano passou a crescer abaixo das projeções mais otimistas feitas pelas montadoras nos últimos anos.

Já no setor de Duas Rodas, o ambiente é diferente. A demanda global por motocicletas e scooters urbanas continua aquecida, impulsionada principalmente pela expansão dos serviços de delivery, mobilidade individual e busca por soluções mais econômicas de transporte nos grandes centros urbanos.

É justamente nesse contexto que a nova planta da Honda na Turquia ganha relevância estratégica. A unidade foi projetada para atender mercados próximos da Europa, Oriente Médio e Norte da África, regiões onde a proximidade logística passou a ser fator decisivo de competitividade. Em vez de concentrar produção em polos distantes, a Honda aposta em uma lógica mais regionalizada, aproximando fábricas dos mercados consumidores e reduzindo custos operacionais.

A escolha também ajuda a explicar por que a expansão não ocorreu em Manaus, apesar da relevância histórica da fábrica brasileira da Honda. A planta do Polo Industrial de Manaus (PIM) segue extremamente estratégica para o mercado nacional e latino-americano, mas a Turquia oferece vantagens logísticas muito mais competitivas para abastecer Europa e regiões vizinhas.

A estratégia da Honda deixa claro que não se trata de redução de investimentos industriais, mas, sim, de reposicionamento de capital em segmentos considerados mais previsíveis e rentáveis no curto e médio prazo.

Enquanto o mercado de carros elétricos ainda enfrenta incertezas relacionadas à demanda, infraestrutura e custos, o setor de Duas Rodas continua sustentado por uma necessidade mais imediata e concreta de mobilidade urbana.

E isso ajuda a entender por que, neste momento, a Honda parece acelerar motos enquanto desacelera elétricos.

 

 

Cristina Monte é jornalista, colunista e analista de negócios, especializada na cobertura de indústria, inovação e desenvolvimento econômico na Amazônia.

 

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