Cerca de 2 mil pessoas vivem na Terra Indígena (TI) Sete de Setembro, do Povo Paiter Suruí (Foto: Giliane Perin)Considerado muito bem organizado, o Povo Indígena Paiter Surui tem avançado na estruturação de suas atividades econômicas, sociais e ambientais, tornando-se um excelente exemplo dentro da Amazônia Brasileira.
Conforme levantamento feito pelo próprio povo Paiter Suruí, cerca de 2 mil pessoas vivem na Terra Indígena (TI) Sete de Setembro, que divide-se em 24 aldeias. O território ocupa aproximadamente 250 mil hectares e compreende os municípios de Cacoal, Espigão do Oeste e Pimenta Bueno, no sudoeste de Rondônia, e Rondolândia, no noroeste de Mato Grosso.
Há vários anos, os indígenas dessa etnia têm desenvolvido uma série de projetos e ações, com foco no desenvolvimento sustentável, fortalecimento cultural e proteção territorial e também buscam participar ativamente de debates globais sobre sustentabilidade.
Foram os Paiter Suruis, por exemplo, os primeiros a criarem uma cooperativa indígena no estado de Rondônia. Reconhecida com o Selo Nacional da Agricultura Familiar (Senaf), em 2021 a Coopaiter conquistou o direito de comercializar seus produtos em todo o território nacional e internacional e, com isso, a primeira cooperativa indígena de Rondônia tem registrado uma evolução constante, ampliando a sua atuação e conquistando cada vez mais espaço.
Atualmente, a cooperativa indígena reúne 240 cooperados, representando aproximadamente 120 famílias, de 13 aldeias principais. Juntos, os Paiter Suruí associados à Coopaiter produzem, principalmente, castanha-do-Brasil, café especial do tipo Robusta Amazônico e banana.
“A cooperativa teve início com a missão de organizar a produção e agregar valor aos produtos do Povo Paiter Suruí”, destaca a gerente de Produção da Coopaiter, Elisângela Dell-Armelina Suruí.
Medicina da Floresta
Outro projeto bastante relevante é o Centro de Medicina Tradicional Olawatawa, que promove a cura pela Floresta, tendo como objetivo principal valorizar as práticas da medicina tradicional do Povo Paiter Surui.
Sob a coordenação de Naraiamat Surui, o Centro Olawatawa está localizado na Aldeia Napidjan, na Linha 09, onde vivem cerca de 07 famílias. Segundo Naraiamat, além de uma estratégia na busca pela saúde do Povo Paiter, a criação do Centro tornou-se uma importante forma de preservar o conhecimento indígena. “É um exemplo poderoso de como a floresta não é apenas morada, mas também farmácia viva, por meio da utilização das plantas medicinais tradicionais e do conhecimento dos mais velhos”, ressalta o coordenador
Atualmente, mais de 50 espécies de plantas medicinais são cultivadas no Centro Olawatawa. As mudas, inicialmente cuidadas no viveiro, são transplantadas para a floresta e, quando atingem o estágio ideal, são utilizadas no tratamento de diversos sintomas e enfermidades. Todos os moradores da Aldeia se beneficiam das propriedades curativas da medicina tradicional da floresta.
Turismo nas aldeias
O Povo Paiter Suruí também compreendeu a importância do Etnoturismo e, cada vez mais, tem se estruturado para atrair e possibilitar que os visitantes vivenciem sua cultura, tradições e culinária de maneira totalmente imersiva.
Ao propor que o turista conheça a Amazônia através dos olhos do Povo Paiter Suruí, os indígenas da Terra Sete de Setembro encontraram um modelo de negócio sustentável que garante aos visitantes o contato direto e respeitoso com o seu Povo e a sua cultura.
Dentro deste ramo de atividade, destaca-se o Complexo Turístico Espaço Yabnaby, apresentado como “Um Refúgio de Cultura e Conexão”. Localizado na aldeia Lapetanha, em Cacoal (RO), o espaço foi inaugurado e 2023 e já recebeu inúmeros turistas nacionais e estrangeiros, inclusive celebridades como o apresentador Luciano Huck e o cantor Xamã.
O espaço possui recepção, restaurante e duas estruturas de hospedagem chamadas de “bangalocas”, uma expressão da cultura Paiter Suruí, caracterizada pelas cores e pelos desenhos inspirados nas pinturas corporais tradicionais da etnia.
Dentro do roteiro turístico do Espaço Yabnaby, os visitantes têm a chance de experimentar a alimentação tradicional, tomar banho nas lagoas e rios que passam pela Aldeia, passear de barco por essas mesmas águas, fazer trilhas na floresta e um tour pela agrofloresta, onde os indígenas cultivam café, banana, cacau e fazem a extração de óleos e outros produtos que são destinados às indústrias de cosméticos. Os pacotes turísticos incluem ainda diversas apresentações culturais, como dança e contação de histórias.
“Aqui a gente faz o revezamento no trabalho das pessoas, para garantir a participação de todo mundo da comunidade. É organizado para todos ajudarem, se envolverem e todos recebem pelo seu trabalho. Antes a gente só recebia as pessoas, mas a gente viu que podíamos fazer disso uma atividade, gerar renda para a aldeia. Hoje vemos o turismo com o olhar de empreendedorismo”, destaca Oyago Suruí, guia de turismo e gerente do Complexo Turístico Espaço Yabnaby.
Tecnologia na floresta
A relação do povo indígena Paiter Suruí com a tecnologia também é um excelente exemplo de como tradição e a inovação podem caminhar juntas. Os Paiter Suruí destacam-se por incorporar, ao longo dos anos, ferramentas tecnológicas modernas para proteger seu território e fortalecer sua cultura. Em 2007, o líder indígena Almir Suruí visitou o escritório do Google nos Estados Unidos e lá conheceu a engenheira Rebeca Moore.
A partir daí, o Povo Paiter Suruí participou de iniciativas como o Google Earth, que possibilitou, com o apoio da tecnologia, o mapeamento de sua Terra Indígena. Hoje, eles utilizam drones, GPS e imagens de satélite para monitorar invasões e o desmatamento em suas terras. Uma vigilância tecnológica que tem sido essencial para denunciar crimes ambientais e preservar as áreas originárias do Povo Paiter.
COP 30
Em novembro de 2025 acontecerá, em Belém (PA), a 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP 30). Trata-se de um evento que tem uma importância fundamental para os povos indígenas, especialmente para aqueles da Amazônia, como os Paiter Suruí, de Rondônia.
Pela primeira vez, uma conferência climática dessa magnitude acontecerá em um território amazônico, o que representa um momento histórico para o fortalecimento das pautas indígenas diante do mundo. O Povo Paiter Suruí, assim como diversas outras etnias presentes em Rondônia, entendeu a importância deste evento e se organizam para marcar presença na COP 30.
Nos dias 06 e 07 de julho, representantes da etnia Surui participaram do Encontro dos Povos Indígenas do estado de Rondônia, Noroeste de Mato Grosso e Sul do Amazonas. O encontro, chamado de COParente, aconteceu na Terra Indígena Igarapé Lurdes do Povo Gavião de Rondônia, em Ji-Paraná, e teve como objetivo planejar a participação dos indígenas na COP30.
Naraiamat Surui, do Centro de Medicina da Floresta, será um dos indígenas que representarão o estado de Rondônia na COP 30, no Pará. “Precisamos ser protagonistas deste momento, que tem o objetivo de tomar decisões tão importantes. Foram escolhidas 15 pessoas de Rondônia, que vão estar na mesa de decisões, junto com líderes mundiais. De todo o Brasil, 500 indígenas vão ter a missão de representar os seus estados e o país. Mas além disso, vamos organizar caravanas, para que mais indígenas de Rondônia possam ir até a COP e mostrar a nossa força e união”, declarou um dos representantes rondonienses e do Povo Paiter Surui.
Ou seja, a COP 30 é mais que uma conferência climática: é uma chance histórica de garantir que os povos indígenas sejam reconhecidos como aliados estratégicos no combate às mudanças climáticas.
Reportagem: Giliane Perin
Fonte: Tribuna Popular.


