Nem só de multinacionais vive o PIM: MXF reforça o ecossistema nacional de duas rodas

A preparação de uma fábrica da MXF Motors em Manaus acrescenta uma nova dinâmica ao atual ciclo de expansão da indústria de duas rodas. Em meio à chegada de grupos asiáticos, especialmente chineses, uma marca brasileira também escolheu o Polo Industrial de Manaus (PIM) para ampliar sua escala e trazer para o país a montagem de motocicletas e veículos off-road atualmente realizada por parceiros no exterior.

A MXF não será a primeira empresa brasileira do segmento a produzir em Manaus. A Dafra mantém uma longa operação industrial na capital amazonense, enquanto a Mottu fabrica suas próprias motocicletas no PIM desde 2022. Mais recentemente, a pernambucana Avelloz também teve aprovado seu projeto para instalar uma fábrica no Polo.

A vinda da MXF deve ser compreendida como parte desse movimento de ampliação da presença nacional em um setor formado majoritariamente por grandes marcas estrangeiras. Embora ainda sejam poucas, as empresas brasileiras mostram que a estrutura industrial de Manaus também pode apoiar marcas nacionais interessadas em ampliar a produção, desenvolver fornecedores e competir em novos mercados.

Além de reunir uma cadeia produtiva consolidada, fornecedores especializados e mão de obra qualificada, o PIM ganhou maior previsibilidade com a reforma tributária, que preservou o tratamento diferenciado da Zona Franca de Manaus (ZFM). Essa segurança jurídica tornou-se mais um atrativo para empresas que avaliam investimentos industriais de longo prazo na região.
A MXF atua desde 2007 e construiu sua presença em segmentos específicos, como motocicletas para trilhas, motocross e enduro, minimotos e quadriciclos. O projeto de Manaus representa uma mudança na estrutura do negócio, com a passagem de uma operação baseada na montagem realizada por parceiros na China para uma produção nacional instalada no principal polo brasileiro do setor.
Nos registros oficiais, os projetos industriais estão vinculados à For Ride Industrial do Brasil Ltda., empresa ligada à MXF e responsável pela implantação da operação em Manaus. É por meio dela que a marca brasileira pretende produzir motocicletas e quadriciclos no PIM.

Os projetos aprovados

Os projetos para a produção de motocicletas e quadriciclos já foram aprovados no âmbito dos incentivos industriais. Juntos, preveem aproximadamente R$ 36,1 milhões em investimentos e potencial para gerar 120 empregos em Manaus.
O projeto de motocicletas, com investimento previsto de R$ 29,6 milhões e 91 postos de trabalho, foi aprovado pelo Conselho de Administração da Suframa (CAS). A segunda iniciativa, destinada à fabricação de quadriciclos, prevê mais R$ 6,5 milhões e 29 empregos.
A empresa também recebeu o aval do Governo do Amazonas para acessar os incentivos estaduais destinados à atividade industrial. Isso confirma que a iniciativa avançou além do anúncio empresarial e já possui respaldo institucional para ser implantada no Polo Industrial de Manaus.

A MXF agora trabalha na conclusão do projeto executivo e na definição dos equipamentos que serão utilizados na fábrica. A previsão é que os primeiros lotes comecem a ser produzidos em fevereiro de 2027.
Números empresariais e números oficiais
Executivos da MXF informaram que a nova unidade deverá ocupar aproximadamente 4.500 metros quadrados em um condomínio logístico na região portuária de Manaus.
A expectativa é produzir cerca de 10 mil veículos no primeiro ano, com a incorporação gradual de 15 a 18 modelos ao longo de 2027. A estrutura, segundo a empresa, será dimensionada para alcançar uma capacidade de até 30 mil unidades por ano em um único turno.

A companhia também mencionou um aporte aproximado de R$ 10 milhões nos próximos dois ou três anos, considerando a estrutura da fábrica e a distribuição. A operação deverá começar com cerca de 40 trabalhadores e poderá alcançar entre 70 e 80 empregados diretos até o início do terceiro ano.
Esses dados têm escopo diferente dos valores registrados nos projetos incentivados. Os R$ 10 milhões apresentados pelos executivos estão relacionados à estrutura fabril e à distribuição, enquanto os R$ 36,1 milhões correspondem à soma dos investimentos projetados para a produção de motocicletas e quadriciclos nos processos oficiais.
Da mesma forma, os empregos informados pela empresa refletem a evolução esperada do quadro de pessoal durante a implantação da fábrica, enquanto os números da Suframa representam o potencial previsto nos dois projetos industriais. São recortes distintos de um mesmo movimento de expansão.

Mais uma empresa brasileira no polo de duas rodas
O investimento da MXF numa planta no PIM ocorre em um período de maior movimentação no polo de duas rodas. Empresas chinesas e de outras origens vêm ampliando sua presença no mercado brasileiro, seja por meio de fábricas próprias, seja utilizando estruturas de produção já instaladas em Manaus.
Esse ingresso é positivo para o PIM, pois novos grupos trazem capital, marcas, tecnologias e maior concorrência. Também contribuem para ampliar o portfólio fabricado localmente, movimentar fornecedores, gerar empregos e reforçar Manaus como referência nacional na produção de motocicletas, motonetas, componentes e outros veículos de mobilidade.

Ao mesmo tempo, a MXF se soma a um grupo ainda reduzido de marcas brasileiras que utilizam ou pretendem utilizar o PIM como base industrial. Dafra e Mottu já mantêm produção em Manaus, enquanto Avelloz e MXF avançam na implantação de suas unidades.
Essa presença nacional não é inédita, mas seu crescimento é significativo. Mostra que os instrumentos da ZFM não atendem apenas às estratégias de grandes multinacionais. Também podem apoiar empresas brasileiras que desejam ganhar escala, nacionalizar etapas produtivas e disputar mercados com fabricantes internacionais.
No caso da MXF, essa dimensão é especialmente relevante. A empresa não está começando do zero: possui marca, portfólio, rede de revendedores, experiência comercial e conhecimento do consumidor brasileiro. A fábrica em Manaus poderá transformar essa experiência de mercado em maior capacidade industrial instalada no país.
Produzir no PIM aproxima a companhia de fornecedores especializados, mão de obra qualificada, serviços de engenharia, operadores logísticos e outras indústrias do setor. Essa concentração pode facilitar a transição de uma operação dependente da montagem externa para uma base produtiva própria no Brasil.

O ganho estratégico para o PIM

Embora os volumes previstos sejam menores quando comparados aos das maiores fabricantes instaladas em Manaus, a importância do projeto não deve ser medida apenas pela quantidade inicial de veículos.
Empresas especializadas ocupam nichos que as grandes indústrias nem sempre atendem. No caso da MXF, há espaço para motocicletas de competição, modelos destinados ao lazer, veículos utilizados em propriedades rurais, quadriciclos e outras soluções voltadas ao universo off-road.
Esse portfólio contribui para diversificar o polo e pode estimular demandas específicas em metalurgia, plásticos, eletrônica embarcada, motores, chassis, suspensões, baterias, pneus, equipamentos de segurança e serviços técnicos.

A implantação também pode abrir caminho para a nacionalização progressiva de componentes. O início pelo sistema CKD, no qual conjuntos e peças chegam desmontados para a montagem local, não precisa ser compreendido como o ponto final do processo. Pode representar a primeira etapa de uma trajetória com maior participação da engenharia, dos fornecedores e do conteúdo produtivo nacional, desde que a operação ganhe escala e competitividade.
Outro potencial está nas exportações. A empresa afirma que pretende consolidar inicialmente sua atuação no mercado brasileiro antes de avançar para as vendas externas. Ainda assim, uma fábrica situada no PIM poderá, no futuro, utilizar Manaus como plataforma para alcançar outros mercados, principalmente aqueles com demanda por motocicletas e veículos off-road.
Um polo que precisa combinar origens e escalas
O fortalecimento do PIM não depende de escolher entre empresas brasileiras ou estrangeiras. Um parque industrial competitivo precisa das duas.

As multinacionais contribuem com escala global, tecnologia, investimentos e integração a grandes cadeias produtivas. As empresas brasileiras acrescentam conhecimento do mercado doméstico, capacidade de adaptação, desenvolvimento de marcas nacionais e maior possibilidade de manter decisões estratégicas no próprio país.
Quanto mais diversificada for essa composição, menor será a dependência de poucas empresas, marcas ou mercados. E quanto maior for a variedade de portes, nacionalidades, tecnologias e modelos de negócio, mais preparado estará o PIM para atravessar mudanças econômicas e transformações no setor de mobilidade.

A planta da MXF em Manaus reforça justamente essa capacidade de atração. Com uma cadeia produtiva consolidada, incentivos industriais e maior previsibilidade após a reforma tributária, o PIM continua reunindo condições para receber grupos globais e apoiar o crescimento de marcas brasileiras a partir da Amazônia.

Cristina Monte é jornalista, colunista e analista de negócios, especializada na cobertura de indústria, inovação e desenvolvimento econômico na Amazônia.

FOTO/DIVULGAÇÃO – MXF

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