Com mais de 9 milhões de empresas inadimplentes e R$ 229,9 bilhões em dívidas negativadas, o Brasil enfrenta um alerta que ultrapassa os balanços empresariais. Juros elevados, crédito restrito, perda de confiança e erros de gestão podem transformar dificuldades financeiras em problemas para fornecedores, trabalhadores e toda a cadeia produtiva.
O pedido de recuperação judicial do Grupo Casas Bahia, apresentado à Justiça com R$ 17,3 bilhões em dívidas, coloca novamente no centro do debate uma questão que vai muito além de uma grande varejista: a saúde financeira das empresas brasileiras. O grupo chega ao processo depois de sucessivos prejuízos e de uma recuperação extrajudicial realizada em 2024. Em seu pedido, relaciona a deterioração financeira, entre outros fatores, aos investimentos realizados durante um período de juros muito baixos, aos efeitos da pandemia, à posterior elevação expressiva da taxa de juros, ao crescimento da inadimplência dos consumidores e às transformações provocadas pela concorrência digital. O caso demonstra como uma estratégia empresarial estruturada para determinado cenário econômico pode tornar-se extremamente vulnerável quando o custo do capital, o comportamento do consumidor e as condições de mercado mudam rapidamente.
O problema, entretanto, está longe de ser isolado. Dados da Serasa Experian mostram que mais de 9 milhões de empresas estavam inadimplentes em maio de 2026, mantendo o indicador em patamar recorde. Juntas, acumulavam R$ 229,9 bilhões em dívidas negativadas, com quase sete compromissos vencidos, em média, por CNPJ. Micro e pequenas empresas representam a maior parcela desse universo, mas as dificuldades alcançam diferentes portes e atividades econômicas. Os pedidos de recuperação judicial também permanecem elevados, depois de 2025 ter registrado o maior número de empresas envolvidas nesses processos da série histórica da instituição. Isso revela um ambiente no qual muitas organizações não enfrentam apenas uma redução momentânea de caixa, mas dificuldades crescentes para administrar passivos acumulados, refinanciar obrigações e preservar capital de giro.
Na indústria, esse cenário merece atenção especial. Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria aponta que carga tributária elevada, custo das matérias-primas, juros altos e demanda interna insuficiente permanecem entre os principais problemas relatados pelo setor. Em julho, o Índice de Confiança do Empresário Industrial caiu para 44,4 pontos, o menor nível desde junho de 2020, completando 19 meses em uma região que indica falta de confiança. A pressão financeira aparece também no financiamento das operações: entre as empresas que esperam maior necessidade de recursos para pagar fornecedores, 72% projetam também aumento dos juros dessas operações. Quando financiar estoque, matéria-prima, recebíveis e capital de giro se torna mais caro, empresas altamente alavancadas ficam particularmente vulneráveis.
Essa discussão chega diretamente ao Polo Industrial de Manaus (PIM), ainda que seus indicadores recentes sejam robustos. Segundo a Suframa, o Polo faturou R$ 99,64 bilhões entre janeiro e maio de 2026 e manteve média mensal de 130.605 empregos, com forte participação dos segmentos de Duas Rodas, Bens de Informática, Eletroeletrônico, Químico, Termoplástico e Metalúrgico. São números importantes, mas que não tornam o modelo imune ao cenário nacional. O PIM está inserido em cadeias complexas de fornecedores, transportadores, prestadores de serviços, distribuidores e varejistas espalhados pelo país. Se grandes compradores reduzem pedidos, empresas enfrentam dificuldades financeiras ou o consumo das famílias perde força, os efeitos podem percorrer a cadeia até chegar à produção. Por isso, faturamento elevado não deve ser confundido automaticamente com ausência de riscos financeiros.
É justamente aí que casos como o da Casas Bahia oferecem uma reflexão para Manaus. Uma grande crise empresarial raramente fica restrita aos acionistas ou aos bancos credores. No pedido da varejista, por exemplo, aparecem aproximadamente R$ 154 milhões devidos a microempresas e empresas de pequeno porte, além de passivos trabalhistas relevantes. A companhia também informou milhares de demissões e o fechamento de quase 300 lojas. Quando uma empresa de grande porte reduz operações ou entra em recuperação, fornecedores podem demorar mais para receber, prestadores de serviços perdem contratos, trabalhadores perdem renda e instituições financeiras tornam-se mais cautelosas. Em uma economia industrial integrada, o problema de liquidez de uma companhia pode transformar-se rapidamente em problema de caixa para outras empresas da cadeia.
O ambiente econômico e político também influencia as decisões empresariais, mas é importante evitar explicações simplistas. Juros ainda elevados aumentam o custo do capital; incertezas fiscais, tributárias, regulatórias ou políticas podem adiar investimentos; inflação de determinados insumos pressiona margens; e famílias endividadas reduzem sua capacidade de consumo. Ao mesmo tempo, nenhuma dessas variáveis elimina a responsabilidade da própria gestão. Empresas entram em dificuldades também quando crescem sem planejamento, assumem dívidas incompatíveis com sua geração de caixa, mantêm estruturas excessivamente caras, negligenciam margens e produtividade ou utilizam novos empréstimos apenas para pagar obrigações antigas. Uma crise externa pode revelar — e acelerar — fragilidades internas que permaneceram escondidas durante períodos de crédito abundante e vendas maiores.
A saída, portanto, começa antes da recuperação judicial. Empresas precisam tratar gestão de caixa, endividamento e risco com a mesma importância dedicada a vendas e faturamento. Isso significa acompanhar fluxo de caixa projetado, margem operacional, necessidade de capital de giro, ciclo financeiro, concentração de clientes, exposição a fornecedores, custo médio das dívidas e capacidade real de pagamento. Na indústria, acrescentam-se decisões sobre estoques, produtividade, investimentos, logística e financiamento de máquinas e equipamentos. Para empresas ligadas ao PIM, também é prudente desenvolver cenários de estresse que considerem redução de pedidos, aumento do custo logístico, oscilação cambial, mudanças tributárias e encarecimento do crédito. Renegociar uma dívida enquanto a empresa ainda possui capacidade financeira é muito diferente de procurar uma solução quando o caixa já se esgotou.
Há ainda uma mudança de mentalidade necessária, principalmente entre pequenos e médios empresários. Faturar muito não significa necessariamente ganhar dinheiro, assim como crescer não significa estar financeiramente saudável. Uma empresa pode aumentar vendas e, simultaneamente, destruir caixa se suas margens forem insuficientes, seus estoques crescerem excessivamente ou suas dívidas avançarem mais rapidamente que sua capacidade de gerar resultado. O mesmo princípio vale para grandes corporações. Governança financeira, planejamento, controle de custos, produtividade, diversificação de receitas e uma política responsável de endividamento deixaram de ser ferramentas apenas para períodos de crise: tornaram-se mecanismos de sobrevivência.
O aumento da inadimplência empresarial e os processos de recuperação judicial devem, portanto, ser interpretados como um sinal de alerta para toda a economia brasileira. O caso Casas Bahia chama atenção pelo tamanho, mas a questão mais importante está nas milhares de empresas que silenciosamente renegociam dívidas, atrasam fornecedores ou recorrem a crédito caro para manter suas operações. Para o Polo Industrial de Manaus, que continua sendo um dos principais motores econômicos da Amazônia, preservar competitividade significa também fortalecer a saúde financeira das empresas que compõem sua cadeia. Em tempos de juros elevados, incerteza econômica e transformações tributárias e tecnológicas, sobreviver não dependerá apenas de produzir e vender mais. Dependerá, sobretudo, da capacidade de transformar faturamento em caixa, crescimento em resultado e crédito em desenvolvimento — antes que a dívida passe a comandar o negócio.
Alon Hans é engenheiro de Telecomunicações, consultor e educador financeiro, palestrante, professor, articulista e escritor. Atua há mais de 15 anos com consultoria para pessoas e empresas, com foco em educação financeira, empreendedorismo, negócios e investimentos.
Possui quase 26 anos de experiência em indústrias nacionais e multinacionais, com atuação nas áreas de Produção, Engenharia, Projetos e Gestão Operacional.
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